quinta-feira, 13 de março de 2014

O campo revelado - entrevista com Carlos Armenio Khatounian




O campo revelado


Revista Página22 – 10.11.2011

Por Carolina Derivi



Seja na escala planetária, seja naquela da nossa vida cotidiana, velhos hábitos são difíceis de contestar. Depois de estabelecido, um modus operandi pode se transformar numa espécie de transe, em que qualquer variação da norma se assemelha a uma excentricidade. E é a nos acordar desse transe, quando a o assunto é a sustentabilidade no campo, que se dedica o professor da Esalq-USP, Carlos Armenio Khatounian.

Um dos maiores nomes da agroecologia no Brasil, Khatounian contesta a ideia de que só a agricultura empresarial é eficiente e bem-sucedida. Lembra que as propriedades menores e de trabalho familiar ainda são predominantes no mundo, com grande capacidade de adaptação aos soluços da economia e ao aproveitamento racional dos recursos naturais.

Mais que espaço e oportunidade, há necessidade de uma agricultura de base ecológica, especialmente em tempos de superpopulação, em que a segurança alimentar ascende ao topo dos problemas globais. No entanto, diz o professor, nenhuma inovação no âmbito das lavouras dará conta do recado se a humanidade não reformular, urgentemente, os padrões de sua própria dieta.



Existe um receituário de agricultura sustentável capaz de alimentar o mundo todo?

Vou começar numa perspectiva histórica mais longa, para ser mais preciso. A nossa aventura enquanto espécie biológica começa há 150 mil anos atrás. Nessa trajetória, nós fomos sobretudo caçadores coletores. Só passamos a ser agricultores, em alguns lugares do mundo, entre 10 mil e 12 mil anos atrás. Então, a agricultura é uma maneira relativamente recente de nos relacionarmos com o meio ambiente.

Os vestígios da agricultura mais antiga revelam um sistema de derruba-e-queima. Muito antes de começarem as civilizações antigas, que desenvolveram a escrita, fizemos 5 mil anos pelo menos de derruba-e-queima. E foi só quando as áreas disponíveis nessas regiões tinham sido completamente degradadas é que nós passamos para a beira do rio. Para uma civilização primitiva, era praticamente impossível enfrentar a força de um rio, não tinha controle das cheias, que podiam levar todo um ano de trabalho.

Acontece que, nessas regiões onde surgiu essa agricultura hidráulica, a floresta não se recompunha. Então a agricultura ia deixando atrás de si um deserto. E, quando chegou o momento que não tinha mais área para fazer derruba-e-queima, eles não tiveram outra saída que não fosse descer para a beira dos rios. Então, o início da História já é marcado por uma crise ambiental derivada da agricultura, uma crise de desmatamento e desertificação.

O seu ponto é que a agricultura nasceu acoplada à degradação ambiental e permanecerá assim?

Então, o “permanecerá assim” é que é a pergunta. Agricultura e degradação ambiental caminharam juntas na História, inclusive nos países que hoje nós chamamos de desenvolvidos. É importante falar disso, porque existe uma ideia, mais ou menos disseminada, de que a agricultura que nós fazíamos 100 anos atrás era sustentável. Mas isso não é verdadeiro. Na verdade, a agricultura que nós estamos fazendo desde 10 mil anos é uma agricultura insustentável.

Vou colocar a pergunta de outra maneira: é verdade que só a grande escala e a monocultura são eficientes o bastante para alimentar um cenário de 9 bilhões de pessoas em 2050?

Essa pergunta é bem mais fácil de responder. Se você olhar a história da agricultura, o que predomina é a agricultura familiar. No livro História das Agriculturas no Mundo (de Mazoyer e Laurence Roudart), o professor da Universidade de Paris, Marcel Mazoyer, quantificou o número de agricultores do começo ao fim dos Novecentos. Em 100 anos, o número de agricultores na Europa foi reduzido a 10%. De cada 100 propriedades, apenas 10 restaram no ano 2000. No entanto, apesar de ter havido uma diminuição no número de propriedades, essa agricultura é essencialmente familiar. Nos Estados Unidos e no Brasil também.

Quando a gente fala de Paraná, você pensa em agricultura familiar predominante. Mas, quando se fala em Mato Grosso, você pensa que é agricultura empresarial. Eu achei que isso seria parte da nossa conversa e levantei os dados do Censo. No Paraná, coisa de 75% a 80% das propriedades são tocadas com mão de obra familiar. E no Mato Grosso? Quanto você acha que seria? Dá um chute.

Quarenta por cento?

Vou te dar os dados do Censo: 75%. Isso porque as grandes unidades, com regime de mão de obra capitalista, são altamente instáveis. Nesse livro que eu menciono, o autor se propõe a seguinte pergunta: por que a agricultura europeia neste último século diminuiu em número, mas ao mesmo tempo continuou essencialmente familiar no uso da força de trabalho?

A resposta é relativamente simples. A agricultura passa por altos e baixos, como qualquer setor econômico, mas tem ciclos de preços mais ou menos previsíveis. Imagine que estamos falando de café. O café, hoje, está numa fase de preço alto, e nessa fase você consegue manter uma relação trabalhista de assalariamento sem problemas. Mas nós podemos voltar daqui a dois anos a um preço de café, não na faixa dos R$ 500, mas na faixa dos R$ 250, que é um valor histórico realista.

Quando bater nesses R$ 250, digamos que vai sobrar um limite de R$ 50 por saca para a família sobreviver. Ela não vai ganhar muito nesse ano, mas vai manter o negócio, enquanto aquele sistema empresarial não tem como comprimir despesas. Não tem como dizer para o empregado que ele não vai receber décimo terceiro salário, porque o café baixou de preço. Na propriedade familiar, se o pessoal conseguir manter o negócio e pagar as despesas, mesmo que não sobre nada, está no positivo.

Por isso os empreendimentos de agricultura familiar são mais numerosos?

Por isso a agricultura familiar é uma atividade que reúne muito mais sustentabilidade do que a empresarial.

Inclusive econômica.

Sim. Esse é um ponto pacífico. A agricultura empresarial depende de preços mais elevados para se manter viva. E não é uma observação para um único país. É a observação do conjunto dos países hoje. Agora, isso não quer dizer que qualquer esquema de agricultura familiar seja melhor que qualquer esquema de agricultura empresarial. O modelo familiar num padrão tecnológico muito baixo vai ter mais dificuldade.

Olhando a história da Europa, podemos refletir sobre a nossa. Nove em cada dez agricultores desapareceram. Esses foram os menos eficientes nessa estrutura de agricultura familiar. Menos eficientes porque ocuparam áreas marginais, com menor potencial de produção, ou porque não conseguiam uma reserva para aplicar na tecnologia. Enfim, as razões mais diversas. E esses acabam sendo assimilados pelos mais eficientes. Isso remete para uma grande questão, nas políticas públicas do Brasil. A gente deve estimular a agricultura familiar a se tornar mais eficiente enquanto tal, ou a gente deve estimular a agricultura empresarial?

O senhor tem essa resposta?

Não sou eu que tenho a resposta, é a História que dá. A História diz assim: é mais confiável aplicar na agricultura familiar.

Porque é mais adaptável, mais resiliente?

Sim. O Oeste do Paraná é uma agricultura modernizada e intensiva. Se você for para aquela região, você vai olhar e pensar: “Isso não é agricultura familiar”. Não é aquilo que você imagina, o sujeito passando fome e pedindo ajuda do governo. É uma agricultura familiar mais capitalizada, mais tecnificada, capaz de se desenvolver e passar por crises que a agricultura empresarial não consegue.

A origem da confusão que leva à pergunta que você fez – o que é mais sustentável, a agricultura empresarial ou a agricultura familiar? – é que normalmente nós associamos modernização ao modelo empresarial e o modelo familiar a um processo tecnológico aparentemente mais rudimentar. Mas os dados do Censo não embasam essa perspectiva. O Censo mostra que o grosso da agricultura brasileira é familiar, inclusive nos estados que a gente imagina que são da agricultura empresarial.

Então, quando se fala em agricultura sustentável, a questão é menos a escala e mais a técnica aplicada?

São as duas coisas. Essa pergunta poderia ser desmembrada assim: é possível fazer agricultura ambientalmente melhor em grande escala, ou isso tem de ser na escala dos pequenos? De novo, eu vou responder não o que eu acho, mas o que o mundo me apresenta. Se você for olhar agricultura de base ecológica, você vai encontrar desde propriedades medidas em vários milhares de hectares até propriedades medidas em poucos hectares.

A maior iniciativa de produção de açúcar orgânico no mundo é aqui no estado de São Paulo, em Sertãozinho, a Usina São Francisco (da empresa Native). Se não me engano, tem 13 mil hectares de cana orgânica. No Pará, a Agropalma tem 4 mil e poucos hectares de dendê orgânico. E assim há outros exemplos. Não são muitos, porque as propriedades destes tamanhos também são menos numerosas. Mas esses exemplos mostram que é possível fazer agricultura tecnologicamente melhor, no sentido do meio ambiente, em escala ampliada. Não tem nenhuma incompatibilidade.

Agora, para cada cultura existem os problemas específicos. Para algumas culturas nós dispomos de um estoque tecnológico que permite fazer isso bem. Pra outras, o estoque tecnológico não é suficiente para ampliação de escala.

Tem outra coisa: na hora em que você amplia a escala, surgem problemas de administração. Uma área agrícola nunca é homogênea. Imagine um agricultor que tem uma terra mais seca em cima do morro, depois vem uma mais ou menos úmida, depois outra, abaixo, mais sombreada. Um agricultor pequeno consegue aplicar em cada pedaço desse terreno uma cultura mais adequada. Na parte mais sombreada e mais úmida, ele poderia plantar inhame. Na parte intermediária, feijão, milho. E, na parte mais seca, onde bate mais sol, talvez pudesse fazer um reflorestamento com eucalipto.

Em um sítio de 5 ou 10 hectares é lógico fazer isso. O agricultor tem condição de administrar e tem mais rendimento se fizer isso. Mas, se nós estivermos dentro de uma propriedade de 5 mil hectares de uma produtora de polpa de celulose, aí é impossível para ela, dada a sua dimensão, fazer essa administração de microssítios. Essa empresa vai plantar eucalipto em tudo, por uma necessidade de simplificação administrativa. Por conta disso, as propriedades familiares que trabalham em menor escala têm mais possibilidade administrativa de fazer um uso mais eficiente dos recursos naturais. Eu gostaria que houvesse centenas de usinas como a São Francisco no Brasil, em vez de uma só. Mas é mais fácil fazer isso numa escala de agricultura familiar.

Falta conhecimento, pesquisa?

A pesquisa agrícola organizada é um fato de 100 anos na história da humanidade. Os conhecimentos para utilização de adubos químicos estavam bem formatados em meados dos Oitocentos, mas até o fim daquele século praticamente não foram utilizados. Isso é um fenômeno do século XX. E, nesses 100 anos, o grosso da pesquisa agrícola foi direcionado aos insumos químicos.

A pesquisa de foco mais biológico tem uns 30 anos. Quando eu era estudante desta escola aqui (Esalq-USP), se você falasse de controle biológico de pragas, isso era filosofia. Um professor chegou a escrever isso numa prova minha, “o senhor é um filósofo”. E hoje não existe praticamente nenhuma cultura no Brasil sem alguma técnica de controle biológico de pragas.

Mas isso foi fruto de investigação. A cada dia estão surgindo coisas novas. Hoje você encontra insumos para uma série de coisas. Hoje tem um fungo, chamado “tricodermo”, que é comercializado para controlar doenças de raiz de planta, em lugar de aplicar um fungicida. Essas tecnologias vêm aumentando muito, mas elas ainda são muito poucas em face do tamanho do desafio.

Parece que o senhor está dizendo que, a depender de empenho em P&D, no futuro seria possível produzir todos os alimentos livres de agrotóxicos…

Sim e não. Se você for comparar hoje o rendimento quilos-por-hectare de culturas orgânicas e tradicionais, é quase o mesmo. Em alguns casos colhe-se mais, em outros um pouco menos. Em um levantamento feito nos Estados Unidos, uns cinco anos atrás, mostrou-se que a diferença era 5% a menos para os cultivos orgâni- cos, em média. O que é surpreendente, dada a falta de investigação.

Agora vamos voltar à questão de alimentos versus população. A FAO faz previsões de que nós vamos chegar em meados do século ao redor de 9 bilhões de habitantes. Nós já passamos dos 7. Fazendo as contas, na virada dos anos 2030 para os 2040, seria necessário dobrar a produção de grãos para alimentar essa população. Acontece que nós não temos recursos – nem de solo, nem de água, nem de energia – para duplicar a produção.

Simplesmente esses recursos não existem. Só tem um continente com grande possibilidade de expansão, que é a América do Sul, sobretudo no Brasil. Na Europa não tem, na América do Norte não tem, e na Ásia tem muito pouco. Quase toda a África, ao Sul do Saara, é semiárida. Para fazer produção nessas regiões, seria preciso irrigar. Podemos fazer um poço profundo e retirar água dali, ideia levada a cabo na China, na Índia e nos Estados Unidos, que são os três países que mais irrigam em regiões de semiárido.

Acontece o seguinte: a água que esses países estão extraindo do solo acumulou-se em tempos geológico passados. No tempo presente, chove pouco, então os aquíferos não são alimentados. O resultado é que a água é como um poço de petróleo. Vai-se esgotar.

E isso já está acontecendo nesses três países. Não tem como. E a agricultura, à medida que se tecnifica, consome mais e mais energia do petróleo. E, se você tem hoje qualquer flutuação no preço do petróleo, também há uma flutuação imediata nos preços dos alimentos. E os fertilizantes nitrogenados são totalmente dependentes do petróleo.

Fora todo o consumo energético com transporte, armazenamento…

Fora tudo isso. Nós podemos, num esforço, ampliar momentaneamente a produção, mas não temos como fazer esse salto enorme sustentavelmente. Pra piorar, estamos falando de incorporação de áreas agrícolas, mas o mundo também perde áreas agricultáveis anualmente. Se não me falha a memória, é da ordem de 5 milhões de hectares por ano. Não apenas temos capacidade limitada de avançar, mas estamos testemunhando a perda das áreas que antes eram utilizadas.

E por quê?

Por causa da sanilização e da desertificação.

Como consequência da agricultura convencional?

Sim.

Então, quais são as opções de que o mundo dispõe? Seria preciso rever o consumo de alimentos de origem animal, que puxa o consumo de água e grãos?

Então, este é o outro ponto. A Dinamarca consumia, na virada do milênio, na ordem de 1.400, 1.500 quilos de grãos por habitante ao ano. Isso significa quase 3 quilos de grão por dia. Não tem jeito de uma pessoa comer isso. Aqui no Brasil, a gente come cerca de 150 gramas de arroz por dia, comendo bastante. Essa produção está embutida no consumo animal.

Os dados médios da produção animal dos Estados Unidos – semelhante ao Brasil – mostram que para 1 quilo de frango são necessários mais ou menos 11 quilos de grãos. E, para 1 quilo de porco, são 22 quilos de grãos. O pessoal da indústria fala que gasta, em média, 2 quilos de ração para fazer 1 quilo de frango. Mas isso é o animal vivo. Você não come pena, bico, osso, tripa.

Outra coisa: a ração tem 12% de umidade. E a carne tem 80%. A comparação correta, então, seria se fosse eliminada a água. Quando você elimina a água, 1 quilo de matéria seca da parte comestível do frango custa 11 quilos de ração. É um custo absurdamente elevado.

Com esse padrão alimentar não dá para saciar o mundo?

De jeito nenhum. Nem com transgênico, nem com convencional, nem com orgânico. O resultado é que, queiramos ou não, nós seremos obrigados a mudar a nossa dieta.

Por isso o senhor respondeu “sim e não”.

Exato. A primeira parte era sim, é possível manter um nível bom de produtividade com a agricultura de base ecológica. Mas não tem jeito, nós vamos ter que mudar as nossas dietas. A pergunta que se pode colocar é quando isso acontecerá e se a humanidade vai enfrentar isso com guerra ou de uma forma discutida, negociada.

Uma guerra da carne?

Não é bem isso. Imagine que você está num churrasco. Tem lá uma saladinha de alface, tem vinagrete, tem pão, e alguém tirou um pedaço de picanha da churrasqueira e começou a fatiar. Para onde vai o pessoal? Para a picanha. Por que é que nós gostamos mais de carne? Se você olhar os problemas de saúde humana que nós enfrentamos hoje, estão bem ligados ao hábito alimentar. O consenso dos nutricionistas é o seguinte: estamos comendo muito produto de origem animal, muita gordura, muito açúcar e muito sal. Porque nós comemos mais essas coisas? A resposta é: porque é mais gostoso. Porque, evolutivamente, a gente tinha que desenvolver um pagamento fisiológico para uma necessidade da espécie.

Um pé de mandioca não corre. Um pé de tomate também não corre. Mas bicho corre. Para nós, era importante consumir carne, em determinado momento da nossa história evolutiva, porque a carne é um alimento mais completo do ponto de vista protéico. Mas para ter carne era preciso se esforçar muito mais. Então o pagamento fisiológico era um prazer maior. A mesma coisa vale para a gordura, para o sal e para o açúcar. Era muito menos disponível. Até 50 anos atrás, quase ninguém enchia a barriga de carne ou se empanturrava de doce.

Agora, imagine que você está em qualquer país democrático e um governante, entendendo os problemas que são advindos do consumo crescente de carne, decide impor restrições ao consumo, por impostos. Quando ele se elege de novo? Nunca. Em nenhum país democrático essa proposta passaria. Os chineses, há 40 anos, consumiam quatro quilos de produtos de origem animal ao ano por cabeça. E hoje estão consumindo na ordem de 75, de 80 quilos. Quem vai falar para os chineses que não devem consumir carne? Um inglês, que já consome quase 150 quilos? Nenhum país, ou extrato social, tem reserva moral para impedir os outros.

Não tem saída para esse impasse?

Tem um grupo na Inglaterra que chegou à conclusão de que a única maneira de resolver esse problema é com o conhecimento do problema, com a redução voluntária do consumo de carne. É o Eat Less Meat.

Se chegar num momento em que determinado povo não consegue ter acesso a carne e outros continuam tendo acesso a quantidades maiores, você pode esperar que isso estoure na forma de conflito. Esse conflito pode ser, por exemplo, por causa de água. Para produzir grãos, para então converter em carne, você precisa de muita água. Em média, para 1 quilo de grão, você precisa entre 500 e mil litros de água. Porque as plantas também transpiram, não fazem fotossíntese sem transpiração.

Tudo isso não é só catástrofe. Eu acho que tem luz no fim do túnel, e bastante luz. Porque hoje a percepção é a seguinte: a mesma dieta que faz bem para o meio ambiente é a dieta que faz bem para a nossa saúde. Cereais integrais, um pouco de leguminosas, hortaliças e frutas, quantidades moderadas de produtos de origem animal, e quantidades limitadas de açúcar e de álcool. Essa dieta é perfeitamente compatível com uma situação de produção orgânica. Então, o desafio que se coloca é o seguinte: nós não resolvemos a segurança alimentar sem mudar os hábitos. E, ao resolver a questão alimentar, nós resolveremos também as questões de saúde.

Redirecionar a nossa dieta para produtos locais também faz parte dessa solução?

Claro. Vamos imaginar que a gente vai ficar nessa dieta recomendada pelos nutricionistas. Se o seu cereal integral for aveia produzida no Canadá e trigo produzido na Argentina, se as sua leguminosas são grão-de-bico produzido no México e lentilha no Chile, se as suas frutas são peras importadas de Portugal… Bom, você já viu onde eu estou querendo chegar. Pode até ser orgânico, mas o gasto energético de transporte com isso é absurdo.

Tem toda a poluição da siderurgia para fazer esses meios de transporte. E comida humana é essencialmente perecível. Algun cereais, menos. Mas para frutas e hortaliças, a escala é de dias, às vezes nem isso. Exige refrigeração, fungicidas e bactericidas para que esse transporte de longa distância se realize. Ao passo que, se você faz as coisas em esquema local, tudo isso se resolve com mais facilidade. Se você comer hortaliças da região, frutas da época, isso vai mudando. Esse é o padrão da cultura orgânica de base local.

Mas isso envolve também o que se chama de “alimentos da terra”, propícios para a realidade ecológica de cada local?

Sim, são aqueles que naturalmente crescem melhor em determinado local. Uma cultura própria da região pede menos adubo e pode sair sem nenhum veneno. Porque essa cultura está adaptada àquela condição. Para produzir 20 toneladas de mandioca aqui no Brasil, o que a gente precisa? Nada. Precisa de trabalho. Mas, de insumos externos, nada. Então, para o ajuste da composição da dieta ao que é localmente possível de produzir, este é um passo fundamental. Mas isso só acontece quando a gente gosta de ser como a gente é.

No artigo “Breve história ambiental e sociocultural da alimentação no Brasil”, o senhor argumenta que a maior perda com a inserção de novas variedades agrícolas por aqui foi cultural…

É. E o lugar onde essa perda é mais forte no Brasil é a cidade de São Paulo. Eu sou paulistano. A cidade de São Paulo é o lugar em que os imigrantes recentes fizeram todo o esforço para negar as influências tropicais, a influência negra e nordestina, que de alguma forma era identificada como cultural e socialmente inferior.

Quando eu era criança, eu ia para o Nordeste e sentia falta de pão. Porque sou de origem armênia e lá o cereal de base é o trigo, tudo se come com pão. Mas no Nordeste o pessoal comia tapioca, comia inhame com manteiga, comia cuscuz de milho, bolo de mandioca. Se nós paulistas quisermos uma dieta tropical mais adaptada, teríamos que olhar mais para o vizinho.

Mas, hoje, se você for a uma capital nordestina qualquer, o pessoal come pão com manteiga no café da manhã. O trigo foi-se introduzindo fortemente. E continua avançando. O Brasil é o maior importador de trigo. O nosso consumo é da ordem de 8 milhões de toneladas, e só produzimos entre 2 milhões e 3 milhões.

Se a globalização é irreversível, então esse nosso apetite por alimentos do mundo todo que a gente descobriu e passou a gostar não é também irreversível?

Eu acho que é irreversível. Mas a questão essencial é quantitativa. Quando eu como determinados produtos, eu me remeto a experiências minhas de vida. Quando digo que a gente precisa de uma readaptação ao biorregionalismo, não quero dizer que a gente tem de negar a diversidade das nossas origens. Mas que a gente tem de colocar essas necessidades culturais dentro da perspectiva da sustentabilidade.

A interação entre povos e culturas é desejável e o comércio é uma forma importante de interagir. Então, fazer uma macarronada uma vez a cada mês é uma coisa. Mas comer uma macarronada três vezes por semana é outra coisa. E comer todos os dias de manhã o pão de trigo que a gente tem que trazer de fora também.

Mas isso é outra história. Se, nesta conversa, você conseguir quebrar a mentira, o mito de que a eficiência está ligada à agricultura empresarial e de que a agricultura de sucesso no mundo é a empresarial, acho que já está de bom tamanho.



segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Para onde aponta a crise do clima - Washington Novaes



Para onde aponta a crise do clima



Washington Novaes* - 14 de fevereiro de 2014 - Jornal O Estado de S.Paulo


O noticiário recente sobre a mais longa estiagem no Brasil em seis décadas - e suas graves consequências em vários setores de atividade no País - traz consigo memórias incômodas e a sensação de despreparo do poder público e da sociedade para a questão das mudanças do clima. Há muitas décadas numerosos estudos científicos vêm alertando para a gravidade e o agravamento progressivo das mudanças, para a necessidade de implantar sem perda de tempo políticas e programas de "mitigação" e "adaptação" a essas transformações. Mas têm encontrado pela frente o ceticismo - quando não o descaso. Ou a crença nas avaliações dos chamados "céticos do clima".

Para não ter de recuar muito no tempo o autor destas linhas retorna, por exemplo, ao que escreveu neste mesmo espaço há uma década (6/3/2004), quando o panorama na área do clima tinha causas opostas às de hoje: o Nordeste, em janeiro daquele ano, recebera um volume de chuvas sete vezes maior que sua média histórica; em alguns pontos de Goiás, em 50 dias chovera tanto quanto em todo o ano anterior; açudes e barragens rompiam-se; abriam-se comportas para evitar rompimentos e provocavam-se graves inundações a jusante. Cientistas clamavam por um sistema oficial de informações que habilitasse a sociedade para programas de adaptação e mitigação - à semelhança do que a Europa já fazia, devolvendo seus rios ao curso natural, eliminando barragens, evacuando as margens de rios, instalando sistemas de drenagem urbana. O então secretário-geral da ONU, Kofi Annan, advertia: "São visíveis os sinais de mudanças climáticas, com inundações e secas cada vez mais graves". Mas outro artigo (26/3/2004) já acentuava que "no Brasil não se conseguiu ainda definir regras" nem mesmo para um plano nacional de saneamento básico.

Quem quiser recuar ainda mais no tempo pode ir ao artigo de 31/7/1998, há mais de 15 anos, que se referia à maior estiagem no Rio Cuiabá em 65 anos, que ameaçava o fornecimento de água a 1 milhão de pessoas - ao contrário do que acontecia no Rio Branco, no Acre, com "volumes inéditos de chuvas" levando a temer que se repetisse por aqui o drama por que passava a China, com as maiores inundações em 40 anos, 2,5 mil mortos, 1 milhão de desabrigados. Dizia então o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) que de 1967 a 1990 chegara a 3 bilhões o número de pessoas atingidas pelos desastres climáticos.

Agora São Paulo enfrenta os dias mais quentes desde fevereiro de 1943. O "sistema Cantareira está à beira do colapso" (Estado, 8/2) e ameaça reduzir em 45% o suprimento de toda a água na Região Metropolitana de São Paulo. O volume de água armazenado já caiu 13,7% em relação ao que era em 1930. Guarulhos sofre com o racionamento dia sim, dia não. E o panorama se repete praticamente em todo o País, intensificando o consumo de energia elétrica.

Estudiosos como sir Nicholas Stern dizem que o aumento da temperatura no mundo será de 4 a 5 graus até o fim do século. James Lovelock, autor da "teoria Gaia", chega a prever (Rolling Stone, novembro de 2013) que "a raça humana está condenada" a perder mais de 5 bilhões da população até 2100, com o Saara invadindo a Europa, Berlim tornando-se mais quente do que Bagdá. A temperatura subirá 8 graus na América do Norte e na Europa. Segundo a Organização Mundial de Meteorologia, "não haverá pausa no aumento da temperatura"; cada década será mais quente.

Michael Bloomberg, o bilionário ex-prefeito de Nova York, hoje à frente de várias iniciativas "ambientalistas", sugere o fechamento imediato de todas as minas de carvão mineral, a maior fonte de poluição - mas por aqui já pusemos em atividade as nossas termoelétricas a carvão, as mais poluidoras e mais caras. Enquanto isso, a safra de soja em São Paulo já se perdeu em 40% (Estado, 7/2), com prejuízo de R$ 744 milhões. Em Goiás já se foram 15%. E o mundo subsidia o consumo de petróleo.

Não adianta mais exorcizar os que os "céticos" chamavam de "profetas do Apocalipse". Nem fechar os olhos à realidade. Temos de conceber e adotar com muita urgência um plano nacional para o clima. Que inclua regras rigorosas para a ocupação do solo, impeça o desmatamento, promova a recuperação de áreas, proteja os recursos hídricos. Obrigue os administradores públicos a tratar com urgência também do solo urbano e dos planos de drenagem, além da contenção das emissões de poluentes nos transportes. E que nos imponha repensar nossa matriz energética. É preciso conferir prioridade absoluta às fontes de energia "limpas" e renováveis. Avançar com a energia eólica, já competitiva e ainda desprezada. Estimular os formatos de energia solar, que avançam a toda a velocidade no mundo. Voltar a conferir preferência às energias de biomassas, inclusive ao álcool, em que o Brasil foi pioneiro e agora importa dos Estados Unidos para baixar índices de inflação, com o etanol nas bombas prejudicado pela política anti-inflação de segurar os preços dos combustíveis.

Não é só. Temos de caminhar sem retardo para conferir, na matriz energética, prioridade para a microgeração distribuída. Gerada localmente e consumida também localmente, essa microgeração - que pode ser, por exemplo, resultante do aproveitamento de biogás proveniente de dejetos animais, como se está fazendo no Paraná e se começa a fazer em outros lugares - permite ao produtor rural deixar de pagar contas de energia e ainda vender o excedente da produção às distribuidoras. Sem "linhões" fantásticos, caríssimos (já temos mais de 100 mil quilômetros deles), desperdiçadores de energia. Sem megaprojetos de geração que custam os olhos da cara e exigem juros gigantescos.

Este é o caminho do futuro: o desenvolvimento local, com microgeração de energia. Sem concentrar a propriedade, sem concentrar a renda. E se tivermos competência e sorte, reduzindo a emissão de poluentes e contribuindo para atenuar as mudanças do clima.

*Washington Novaes é jornalista. E-mail: wlrnovaes@uol.com.br




quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Entrevista - Enrique Leff




O “sistema venceu” nos ODMs


POR CLARISSA PRESOTTI - Revista Página 22


Entrevista com Enrique Leff



O economista mexicano Enrique Leff acredita que as metas dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) poderão ser alcançadas até o prazo estabelecido de 2015. No entanto, Leff, que é referência mundial nos campos da Economia Ambiental e da Ecologia Política, avalia que muitos acordos globais sobre meio ambiente seguem uma lógica genérica e mercantilista. Para ele, a sustentabilidade não pode ser limitada à construção de metas dentro de uma contabilidade econômica. A agenda global de desenvolvimento pós-2015 começou a ser discutida em setembro, quando teve início a 68ª Sessão da Assembleia Geral da ONU.

Veja a seguir os principais trechos da entrevista que concedeu a PÁGINA22 logo após falar (criticamente) sobre economia verde no V Congresso Brasileiro de Jornalismo Ambiental, realizado de 17 a 19 de outubro em Brasília.

O planeta entra na reta final para cumprir os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM). O senhor acha que é possível países em desenvolvimento atingirem compromissos como a redução da pobreza e das desigualdades e ainda proteger o meio ambiente?

Esses Objetivos do Milênio foram já pensados de uma forma tão genérica que talvez consigam, dentro da codificação que fizeram de toda essa complexa problemática, reduzir pela metade, até 2015, todos os males do mundo, como a pobreza, a desigualdade social ou a desigualdade de gênero, a saúde, a educação e a sustentabilidade. Então, pela forma como foram pautados, está-se perto de conseguir mostrar ao mundo que o sistema venceu. Pois basta considerar os 1,3 bilhão de habitantes chineses que elevaram o nível de vida com o boom de crescimento da China.

Ou mesmo no Brasil, como resultado do programa Fome Zero. A pobreza está sendo medida sobre a ideia de uma mercantilização das coisas do mundo, das necessidades humanas, do sentido da vida mesma, em termos de ingressos monetários. O resultado é uma montagem para mostrar que essa forma de gerar o desenvolvimento dá certo. E assim vão conseguir medições que podem dar certo, mas gerando outros efeitos negativos, como a destruição do meio ambiente e dos modos de vida tradicionais sustentáveis. No fundo, os Objetivos do Milênio foram acordados dentro da geopolítica dominante do chamado “desenvolvimento sustentável”, que representa uma estratégia para se desviar das questões fundamentais sobre a construção de um mundo sustentável, além da capacidade restringida da modernização ecológica sujeita à globalização econômica.

O senhor acredita que os países emergentes conseguiriam assumir um papel de liderança nos esforços em prol da justiça social e a sustentabilidade ambiental, levando em consideração os desafios globais?

À medida que os países emergentes se inserem na lógica do mercado, da geopolítica do desenvolvimento sustentável e do simulacro da economia verde, será impossível fazer uma mudança dessa racionalidade dominante e responder aos desafios globais da crise ambiental. Mas penso que um país como o Brasil tem os recursos para assumir uma liderança para uma transformação civilizatória orientada para a sustentabilidade da vida a partir da produtividade da natureza, da criatividade e da diversidade cultural. Conseguir dessa forma a sustentabilidade é um processo muito complexo e desafiante. Mas o Brasil reúne as condições, pois possui uma produtividade ecológica como nenhum outro país no mundo. No Brasil, existem debates importantes sobre a questão ambiental e movimentos sociais voltados para a construção de outras racionalidades ambientais. Existe uma consciência cidadã nas universidades e redes socioambientais diversas: de agroecologia, extrativismo, conservação e diversos movimentos sociais sobre questões fundamentais que estão sendo debatidas.


Então, existe uma possibilidade dentro do espaço da democracia deliberativa para abrir novos canais de diálogos e alianças para construir a sustentabilidade por vias muito mais inovadoras. Se países como o Equador e a Bolívia, com muito mais limitações, podem tentar se desengajar dos poderes hegemônicos da globalização e abrir outras vias de sustentabilidade, por que o Brasil não? E como os países estão fazendo para abrir esses novos canais?

Vários grupos sociais de diversos países estão abrindo novos caminhos por meio dos movimentos socioambientais de resistência ao modelo dominante e suas manifestações – como na mineração e na agricultura transgênica – e por novos processos de reapropriação da natureza, como as reservas extrativistas, a agroecologia e a justiça ambiental. Mesmo que esses movimentos ainda sejam muito dominados pelo desenvolvimentismo, agora existe, sim, uma complexidade e multiplicidade de processos socioambientais que, no espaço da democracia, podem gerar ações inovadoras, por meio de um diálogo de saberes para outras formas de sustentabilidade.


O senhor diz que estamos vivendo uma crise ambiental global agravada por um cenário catastrófico climático. E que, ao mesmo tempo, existe uma mudança na forma de agir e pensar das pessoas sobre a natureza. Isso é suficiente para reverter esse quadro?

Há ainda muita resistência das instituições e das pessoas em mudar e abrir novos processos. E essa mudança somente é possível com uma grande mobilização social sobre outros fundamentos ontológicos e outras perspectivas do futuro da humanidade, com um compromisso que é preciso mudar as tomadas de decisões e abrir o campo político para experimentar e construir outros modos de sustentabilidade. Neste cenário, o Brasil teria que tomar um protagonismo muito mais forte. Não podemos esperar isso da Índia, da China ou mesmo do México, que não deixam de ser sociedades com grupos intelectualmente críticos, mas que estão muito mais envolvidas com o modelo produtivista atual. No Brasil, embora esteja também envolvido nesse processo de globalização hegemônica, as propostas de outras formas de construção da sustentabilidade têm mais ressonância. Existe uma sintonia, uma sensibilidade cultural, que é possível de se encontrar no Brasil em diversos meios acadêmicos e sociais, até mesmo em alguns espaços empresariais e governamentais.

Mas existe um longo caminho pela frente mesmo aqui no Brasil, não?

Sim, existe um longo caminho. É preciso acreditar mais nessas outras racionalidades, radicalizar os movimentos e legitimar essas vias alternativas para a construção da sustentabilidade.








quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Entrevista - David Harvey





'Privatização de tudo' gerou protestos, que vão continuar



ENTREVISTA - DAVID HARVEY

GEÓGRAFO DIZ QUE A CRISE MUNDIAL AMPLIOU A CONCENTRAÇÃO DA RIQUEZA E CRITICA GASTOS DO BRASIL COM COPA E OLIMPÍADA



Folha S. Paulo - Eleonora de Lucena - São Paulo


O projeto neoliberal é privatizar e "commoditizar" tudo. No seu fracasso em realizar promessas de eficiência estão as raízes dos protestos que eclodem pelo mundo e no Brasil. Partidos convencionais, reféns do capital internacional, não conseguem canalizar a raiva das ruas. Não há ideias novas, e as manifestações vão continuar.

A análise é do geógrafo marxista britânico David Harvey, 78. Professor da Universidade da Cidade de Nova York, ele ataca os "oligarcas globais" e afirma que os bilionários foram os que mais ganharam com a crise.

Crítico de megaeventos como Copa e Olimpíada, ele diz que os governos são muito influenciados pelo capital financeiro: "Esses eventos são sobre a acumulação de capital através de desenvolvimento de infraestrutura. Os pobres tendem a sofrer, e os ricos tendem a ficar mais ricos".

A partir de sexta Harvey irá a debates no Brasil sobre o lançamento de seu livro "Os Limites do Capital" e da coletânea "Cidades Rebeldes".

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Folha - Qual sua avaliação sobre a situação mundial?
David Harvey - É muito mutante e volátil. Está tão perigosa quanto sempre foi. O que me surpreende é que não há novas ideias. As receitas propostas aprofundam o modelo neoliberal ou tentam desenvolver alguma forma de keynesianismo. Ambas opções me parecem muito frágeis.

O sr. disse à Folha em 2012 que a crise deveria aprofundar a concentração de capital e as desigualdades. Isso ocorreu?
Sim. Todos os dados mostram que o número de bilionários cresceu no mundo. Foi o grupo que melhor se saiu melhor na crise, enquanto todos os outros ou permaneceram estagnados ou perderam. O crescimento principal está sendo canalizado para o 1% mais rico da população mundial. É preciso haver uma redistribuição de renda globalmente e entre classes. O clube dos bilionários é que é o problema. Oligarcas globais controlam potencialmente ¾ da economia global. Meu ponto é: vamos para crescimento zero, sem canalizar o crescimento para eles e, ao mesmo tempo, devemos fazer uma redistribuição.

Nesse cenário haveria uma guerra, não?
Olhando para o que está acontecendo nas ruas se pode pensar que esse tipo de coisa não está tão longe assim.

Qual sua visão dos protestos pelo mundo? O sr. defendeu a criação de um "partido da indignação" para lutar contra o "partido de Wall Street". Como essa ideia evoluiu?
Os movimentos não estão indo muito bem. O poder político se moveu rapidamente para tentar reprimir os protestos. Há também muitas divisões entre os movimentos. Sobre o futuro, é muito difícil prever. A situação é muito volátil para os movimentos.

E sobre os protestos no Brasil?
Existe uma desilusão generalizada do processo político. As pessoas estão começando a discutir como modificar os piores aspectos da exploração capitalista. Há também uma alienação, que leva a alguma passividade, que é interrompida ocasionalmente por explosões de raiva. O nível de frustração por todo o mundo está muito alto agora. Não surpreende que essas manifestações ocorram. O problema é canalizar essa raiva para movimentos políticos que tenham um projeto. Prevejo mais explosões de raiva nos próximos anos --no Egito, na Suécia, no Brasil etc.

Há conexão entre esses movimentos?
Sim, cada um tem suas demandas específicas, mas há problemas de base provocados pela natureza autocrática do neoliberalismo, que virou um padrão para o comportamento político. Ele não é satisfatório para a massa da população e fracassou em entregar o que prometeu. Há uma crise na governança democrática e uma raiva contra as formas tomadas pelo capitalismo. No norte da África os protestos foram parcialmente sobre a alta nos preços da comida. Isso diz respeito ao poder do agronegócio e à especulação com as commodities, causas da alta dos preços.

No Brasil os protestos estouraram por causa da alta nas tarifas de ônibus. Como especialista em questões urbanas, como o sr. avalia o problema?
O projeto neoliberal é privatizar e "commoditizar" tudo. Tudo vira objeto das forças do mercado. Dizem que essa é a forma mais eficiente de prover bens e serviços para uma população. Mas, na verdade, é uma maneira muito eficiente de um grupo da população reunir uma grande soma de riqueza às custas de outro grupo da população --sem entregar, de fato, bens e serviços (transporte, comida, casas etc.). Essa é uma das razões do descontentamento da população. Por isso, explodem manifestações de raiva em diferentes lugares e em diferentes direções políticas. Há uma situação de fundo que dá uma visão comum às batalhas, embora cada uma delas seja específica e diferente. No Brasil foi o custo do transporte. Em outros lugares é preço da comida, da habitação etc.

Em São Paulo há também a discussão sobre o aumento do imposto sobre propriedade urbana. Isso também evidencia uma luta social?
Vamos chamar de luta de classes. Ela está mais evidente, mas muitas pessoas não gostam de falar sobre isso.

Partidos tradicionais foram pegos de surpresa no Brasil. Mas os movimentos não têm organização própria. Como isso pode se transformar em forças políticas organizadas?
Se eu tivesse essa resposta, não estaria falando com você agora. Estaria lá fora fazendo. A situação agora reflete a alienação das pessoas em relação a praticamente todos os partidos políticos e a sua desilusão com o processo político. Nos EUA, o Congresso tem uma taxa de aprovação de 10%. Nessa circunstância, as pessoas não vão canalizar o seu descontentamento para o processo político, pois não enxergam esperança nisso. Por isso, há essa raiva. E assim as coisas vão continuar.

O sr. concorda com a visão de que partidos de todos os matizes caminharam para a direita e que a esquerda se diluiu em ONGs e estruturas voláteis?
Há internacionalmente uma ortodoxia econômica, que é reforçada pelos movimentos do capital internacional. Os partidos políticos convencionais se tornaram reféns desse poder.

Isso acontece com o PT?
Isso é para o julgamento de seus leitores. Noto que há uma desilusão sobre o PT entre seus próprios integrantes.

O sr. está escrevendo um livro sobre as contradições do capitalismo. Qual é a principal?
Estão mais restritas as condições que o capital tem para crescer. É muito difícil achar novos lugares para ir e novas atividades produtivas que possam absorver a enorme quantidade de capital que está buscando atividades lucrativas. Em consequência muito capital vai para atividades especulativas, patrimônio, compra de terras, commodities. Criam-se bolhas.

O sr. escreveu que é cada vez mais difícil encontrar o inimigo. Quem é o inimigo?
O inimigo é um processo, não uma pessoa. É um processo de circulação de capital que entra e sai de países. Quando decide entrar, há um "boom"; quando decide sair, há uma depressão. Por isso é necessário controlar esse processo de circulação. O Brasil tem possibilidades limitadas, porque o capital pode simplesmente desaparecer.

No início o Brasil parecia estar indo bem na crise. Agora estamos travados. O que deu errado?
Houve mudanças modestas no Brasil no sentido de redistribuir renda, como o Bolsa Família. Mas é necessário fazer muito mais. Muito dos gastos em enormes projetos de infraestrutura ligados à Copa do Mundo e à Olimpíada são uma perda de dinheiro e de recursos. As pessoas se perguntam por que o país está fazendo todos esses investimentos para a Fifa ter um grande lucro. Para o resto do mundo é surpreendente ver brasileiros se revoltando contra novos estádios de futebol.

Copa e Olimpíada não fazem bem para o país?
A Grécia está em dificuldades em parte por causa do que foi feito em razão da Olimpíada de Atenas. Muitas cidades olímpicas nos EUA entraram em dificuldades financeiras.

Como o sr. explica o poder da Fifa e do COI?
É como qualquer poder monopolista: extrai o máximo do que se tem a oferecer. Os governos são muito influenciados pelo capital financeiro. Esses eventos são sobre a acumulação de capital através de desenvolvimento de infraestrutura, de urbanização. Envolvem também despossuir pessoas, removendo-as de suas residências para abrir espaço aos megaprojetos. Os pobres tendem a sofrer, e os ricos tendem a ficar mais ricos.

Como o sr. analisa a situação política na America Latina?
Politicamente houve, na superfície, um tipo de política antineoliberal. Mas não houve nenhum verdadeiro grande desafio para o grande capital. Há discursos anti-FMI. Mas, de outro lado, o Brasil está ofertando a exploração de seu petróleo para empresas estrangeiras, por exemplo. Não é profunda a tentativa de ir realmente contra as fundações do capitalismo neoliberal. É uma política antiliberal só na superfície, na retórica. Mas há alguns elementos, como o Bolsa Família, que não fazem parte da lógica neoliberal. Mesmo a Venezuela não vai muito longe em realmente desafiar os interesses do capital.

Os EUA não perderam posições na região?
Os EUA estão mais fracos na América Latina, em parte porque o crescimento da região foi mais orientado para a o comércio com a China, que ampliou o seu papel imensamente. De muitas formas, a economia na América Latina é muito mais sensível ao que ocorre na economia chinesa do que na norte-americana.

Fonte: 


segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Como os muito ricos estão destruindo a economia dos EUA




Como os muito ricos estão destruindo a economia dos EUA

Robert Reich


Postado em 04 jun 2013 por  Common Dreams

O artigo publicado originalmente no site Common Dreams.



Como o presidente Obama disse em seu discurso de posse, os Estados Unidos “não podem ter sucesso quando poucos enriquecem cada vez mais e muitos mal sobrevivem”.

No entanto, essa continua sendo a direção que seguimos.

Uma análise recém-divulgada pelo Instituto de Política Econômica mostra que os super-ricos têm tido um bom desempenho na recuperação econômica, enquanto quase todos os outros vão mal. Um por cento dos assalariados viu seu salário crescer 8,2 por cento de 2009 a 2011, mas os salários anuais de 90% dos americanos continuaram a declinar na recuperação.

Em outras palavras, estamos de volta à desigualdade anterior à bolha que explodiu em 2008.

Mas o presidente está certo. Nem mesmo os muito ricos podem continuar a ter êxito sem uma prosperidade mais ampla. Isso porque 70% da atividade econômica nos Estados Unidos é o consumo. Se os 90% estão cada vez mais pobres, eles são menos capazes de gastar. Sem seus gastos, a economia não sai da primeira marcha.

Essa é uma grande razão pela qual a recuperação continua a ser anêmica, e por que o Fundo Monetário Internacional reduziu sua estimativa para o crescimento dos EUA em 2013 para apenas 2%.

Quase um quarto de todos os empregos nos Estados Unidos pagam salários abaixo da linha de pobreza para uma família de quatro pessoas. O Bureau of Labor Statistics estima que o crescimento para a próxima década será de baixos salários – como servir clientes em grandes redes varejistas e cadeias de fast food.

Americanos ricos estariam melhores com partes menores de uma economia em rápido crescimento, do que com os grandes pedaços que agora possuem de uma economia que está mal se movendo.

Neste ritmo, quem é que vai comprar todos os bens e serviços que a América é capaz de produzir? Nós não podemos voltar para o tipo do débito financiado que causou a bolha, em primeiro lugar.

Se fossem racionais, os ricos iriam apoiar investimentos públicos em educação e formação profissional, uma infra-estrutura de classe mundial (transporte, água e esgoto, energia, internet), e pesquisa básica – que faria a força de trabalho americana mais produtiva.

Se fossem racionais, eles até mesmo apoiariam os sindicatos. Mas os sindicatos estão quase extintos.

O declínio dos sindicatos na América segue exatamente o declínio da classe média.

Na década de 1950, quando a economia dos EUA estava crescendo mais rápido do que 3% ao ano, mais de um terço de todas as pessoas que trabalham pertencia a um sindicato. Isso lhes deu cacife de negociação suficiente para obter salários que lhes permitiram comprar o que a economia foi capaz de produzir.

Desde o final de 1970, os sindicatos têm corroído – como corroeu o poder de compra da maioria dos americanos, e não por coincidência, o crescimento médio anual da economia.

De quem é a culpa? Parcialmente da globalização e das mudanças tecnológicas. A globalização enviou muitos trabalhadores para o exterior.

A fabricação está começando a voltar para a América, mas está retornando sem muitos empregos. A linha de montagem foi substituída pela robótica e por máquinas-ferramentas de comando digital.

As tecnologias também substituíram muitos ex-trabalhadores sindicalizados em telecomunicações (lembra-se das operadoras de telefonia?).

Mas espere um pouco. Outras nações sujeitas às mesmas forças têm níveis muito mais elevados de sindicalização do que a América. 28% da força de trabalho do Canadá é sindicalizada, como mais de 25% na Grã-Bretanha e quase 20% na Alemanha.

Os sindicatos estão quase extintos na América porque nós escolhemos isso.

Ao contrário de outros países ricos, nossas leis trabalhistas permitem que os empregadores possam substituir trabalhadores em greve. Nós também tornamos extremamente difícil para os trabalhadores se organizarem e mal penalizamos as empresas que violam as leis trabalhistas.

O salário médio de um trabalhador do Walmart é de 8,81 dólares por hora. Um terço dos empregados do Walmart trabalham menos de 28 horas por semana e não se qualificam para os benefícios.

O Walmart é um microcosmo da economia americana, que descaradamente lutou contra os sindicatos. Mas poderia facilmente pagar mais a seus funcionários. Ganhou 16 bilhões de dólares no ano passado. Grande parte dessa quantia foi para os acionistas do Walmart, incluindo a família de seu fundador, Sam Walton.

A riqueza da família Walton agora excede a riqueza de 40% das famílias americanas combinadas, de acordo com uma análise do Instituto de Política Econômica.

Mas como o Walmart espera continuar lucrando quando a maioria de seus clientes está descendo uma escada rolante econômica?

O Walmart deve ser sindicalizado. Assim como o McDonalds. Assim como cada varejista e rede de fast-food do país. Assim como todos os hospitais nos Estados Unidos.

Dessa forma, mais americanos terão bastante dinheiro em seus bolsos para colocar a economia em movimento. E todos – mesmo os muito ricos – serão beneficiados.

Como disse Obama, a América não pode ter sucesso quando alguns poucos vão muito bem enquanto muitos mal sobrevivem.




Robert Reich é  comentarista econômico e político nos Estados Unidos.








quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Manifiesto fundacional de Europe Écologie




Cambio de era: Manifiesto fundacional de Europe Écologie


La historia está parada porque la sinrazón se ha apoderado del mundo. Como testimonian los desarreglos de los mecanismos financieros, el crecimiento del hambre, el agravamiento de las desigualdades y la aceleración del cambio climático, la humanidad está en peligro de perder el control sobre su propio destino. Hemos alcanzado ese momento clave en que todo puede bascular hacia lo irreversible o, al contrario, favorecer una transformación que favorezca la construcción de unas nuevas reglas del juego en la que Europa podría jugar un papel crucial. Caben dos alternativas.

O bien la trayectoria de agotamiento de la generalización de todos los mercados y la depredación ciega se prolonga en el tiempo, y atestiguaremos, por lo tanto, la conjunción de crisis de diversa índole –ecológica, energética, alimentaria, financiera, económica, social e identitaria– que precipitarían el planeta hacia una regresión sin precedentes; o bien las sociedades humanas se re-organizaran, haciendo frente a la espiral de excesos, fractura social y desacoplamiento con el mundo natural a los que nos enfrentamos realizando las reformas necesarias para escapar al caos y construir un nuevo horizonte de esperanza. Es urgente organizarse para lograrlo. Ni mañana, ni a lo mejor… Ahora es el momento.

No hacer nada abriría las puertas a políticas autoritarias para mitigar las penurias y las consecuencias de las migraciones de origen climático. Hacer algo significa evitar la barbarie y elegir la civilización.

No tenemos tiempo. Todos los indicadores están en rojo. Nuestro modelo de desarrollo ha sido pulverizado por la realidad. Cegados por la ideología de un crecimiento sin limites, drogados por el “deja hacer” del liberalismo, el sistema productivista va directo a la catástrofe, como un barco borracho. En todos lados, la inseguridad social se agranda. El progreso pierde sentido en beneficio del crecimiento de la insignificancia y la destrucción de todo lo vivo. La humanidad avanza hacia un desierto.


Otras orientaciones económicas y sociales se imponen. Otro tipo de sociedades son indispensables. Otra política es posible: la de la responsabilidad. El deber de la igualdad universal, la necesidad de reducir la huella ecológica sobre los recursos y los ecosistemas naturales demandan un cambio de era. Debemos de entrar sin mayor dilación en un mundo nuevo, el de una profunda mutación ecológica y social de la civilización. Esta nueva civilización se apoyara sobre los valores de la sobriedad, de la mesura y la moderación, de la colaboración, de la solidaridad y de la democracia, al contrario de las alienaciones comerciales y de las violencias económicas que contaminan los ecosistemas, destruyen a las sociedades, eliminan la diversidad cultural y enredan a los individuos en una competición diaria que crea una frustración permanente.

¿Como construir una alternativa al desencanto del mundo? ¿Cómo hacer posible un cambio basado en el crecimiento personal y el bienestar colectivo? Proponemos una alternativa: la de la regulación de las actividades dirigida esta vez hacia lo humano y la reconciliación con la naturaleza.

* * *

Lo primero que hay que hacer es romper con esta lógica auto-destructiva. Romper con las imposturas sociales y ecológicas de un sistema condenado; romper con los ilusos que intentan corregir solo lo más urgente y que se aprestan a regular lo irreversible; romper con el fatalismo que lleva a acomodarse frente a una situación dolorosa para la mayoría de hombres y mujeres del planeta y para el futuro de nuestros hijos. No saldremos de este atolladero haciendo gestos de cara a la galería, adaptándonos a la lógica dominante o a base de tímidos ajustes sectoriales. Romper, significa ir a la raíz del problema, tanto en el seno de nuestro sistema económico y social como en nuestras practicas individuales. Debemos de modificar la arquitectura de la generalización tanto como el imaginario de cada individuo. Debemos de actuar sobre la estructura de nuestras sociedades y trabajar al mismo tiempo por una insurrección de las conciencias, he ahí los dos desafíos a los que nos enfrentamos para evitar la derrota de la humanidad.

Urge pues reunir las voluntades colectivas para que la humanidad se embarque en otra vía. Otro proyecto de sociedad, otro modelo de civilización… El camino pasa por la refundación progresiva y pacifica de nuestra manera de ser y de vivir, juntos e individualmente. Ni sueño utópico, ni borrachera revolucionaria, el objetivo que debemos de perseguir consiste en abrir el camino a un horizonte emancipador, dando sentido al progreso y consistencia a la esperanza. No defendemos ni mañanas que nunca han de llegar ni programas milagro. Solo buscamos una cosa: unas nuevas reglas, fundadas sobre el imperativo ecológico y social, que cada comunidad humana deberá de establecer por si misma democráticamente. Nuestra propuesta consiste en oponerse paso a paso a las lógicas destructivas y especulativas, a distinguir entre lo que es posible y lo que no lo es, para aglutinar las energías para que la sociedad se embarque en una transición hacia un mundo que, aunque no perfecto, seguirá siendo viable para todos y será más justo para el mayor numero de gente posible.

* * *

Lo que está en juego es tan importante y su urgencia tan acuciante que no podemos seguir consintiendo la tradición de juegos de rol con que la representación política se complace, con sus mangoneos tradicionales que petrifican el futuro y sus crispaciones clánicas que devalúan las conciencias. Sin importar cuales son sus referencias ideológicas, los partidos políticos dominantes se tambalean ante los desafíos del nuevo siglo, y se niegan a saltar el obstáculo del gran cambio que se necesita. Siguen ligados a un tipo de desarrollo insostenible, fundado sobre el mito de un crecimiento exponencial de la riqueza, y al final confiándose al credo absurdo del crecimiento por el crecimiento. Cada uno a su manera, perseveran en la reproducción de mecanismos cada vez más alienantes.

Por lo tanto, el atasco que las fuerzas políticas dominantes imponen a la sociedad debe de ser desatascado. La mayor parte de políticos no están en sintonía con los tiempos de escasez que se avecinan. Son el producto de una época excepcional, la de la revolución industrial y los años del desarrollismo, en que la creencia ciega en la abundancia infinita se hizo con el imaginario colectivo. Esta época consagro el dominio del tener sobre el ser y de lo económico sobre lo político. La matriz común de los partidos políticos, forjada en torno al culto al crecimiento a cualquier precio, impregnado de devoción hacia lo científico y de intolerancia tecnológica, les ha cegado a lo que está ocurriendo. Es por esto que se han negado obstinadamente a escuchar las advertencias lanzadas durante 30 años por el movimiento ecologista. Vivir en este siglo consiste en tomar conciencia de que la era del despilfarro y de la inconsecuencia se ha acabado, que la autorregulación del mercado es un espejismo, que la realidad está determinada por la crisis ecológica y la profundización de las desigualdades sociales. Estos políticos pretenden conducirnos al futuro con sus promesas obsoletas y sus reflejos esclerotizado. A estos partidos rancios debemos de enfrentarnos, electoralmente y democráticamente.

No nos resignaremos jamás a un futuro diseñado por el fundamentalismo del mercado y la ceguera de los incondicionales de la desmesura: un apartheid global basado en el reparto de los recursos y la destrucción de la naturaleza.

* * *

Por todo esto hay que desarrollar un nuevo espacio político en el seno del que se puedan encontrar con toda su diversidad los que estén interesados en la perspectiva de crear un nuevo proyecto de sociedad. Esto no es imposible. Se basa en la aspiración de cada vez más gente de vivir de una manera distinta que no repose tan solo sobre la acumulación, lo ficticio, las deudas y sobre el clamor ciudadano por un reparto más equitativo de la riqueza y un justo intercambio entre los pueblos.

Este modelo alternativo no estará inscrito en ningún dogma ni breviario, aunque este ligado a las más nobles tradiciones humanistas, en particular a la oposición radical al racismo, al antisemitismo, al sexismo y a toda forma de ostracismo y dominación. Este proyecto se construirá paso a paso, a partir de los deseos y necesidades de siete billones de individuos, del interés colectivo de los pueblos de la tierra, de la protección de los bienes comunes, de la expansión de los servicios públicos, del reparto de los recursos y del respeto a los equilibrios existentes entre todos los seres vivos. Estará fundado sobre los valores de la justicia social y la solidaridad global, en la austeridad y la consciencia de los limites, en los derechos humanos y el dialogo democrático. Orientara toda actividad humana hacia la reducción paulatina de la huella ecológica, buscando nuevas formas de consumo, producción, transporte, trabajo, intercambio, innovación y una nueva manera de habitar las ciudades y los territorios en la construcción de una nueva sociedad. Encuadrara rigurosamente los mecanismos de mercado y su prolongación financiera. Estimulara la investigación científica y la creatividad industrial de acuerdo a una perspectiva compatible con las necesidades reales y los limites de la biosfera.

Este nuevo proyecto de sociedad requerirá una nueva regulación económica y social. Se trata de repensar la organización social según el principio de durabilidad, integrando a la vez el imperativo ecológico y la justicia social: durabilidad de los recursos naturales, durabilidad de la diversidad cultural, de los sistemas económicos del mañana, de los contratos sociales y de los modos de vida. Dicho de otra manera, se trata de realizar reformas incompatibles con la hegemonía productivista y consumista que precipita el desgaste ecologico y social a golpe de desregulación, crecimiento del poder financiero, la comercialización y la uniformización.

Ya conocemos los principales instrumentos que conformaran la plataforma electoral de las listas de Europe Ecologie: el decrecimiento del flujo de materias y energía hacia la industrial nuclear y los biocombustibles, una nuevas reglas del juego económicas basadas sobre la proximidad de los intercambios, el fomento de las energías renovables, la búsqueda de nuevos indicadores de riqueza, la regulación del mercado para el fomento de objetivos ecológicos y sociales, el control de los mecanismos financieros, el refuerzo de la economía social y los servicios públicos (servicios de interés general según la terminología europea) en los sectores clave de la vida colectiva (energía, transporte, salud, vivienda, educación, telecomunicaciones, solidaridad social), puesta en marcha de una nueva política fiscal que tenga en cuenta el precio ecológico y que reoriente los comportamientos económicos y la inversión, la protección de los bienes comunes de la humanidad (el agua, el aire, los ríos, los océanos, los bosques, las zonas húmedas y los suelos), protección de las especies, incentivo del trabajo de los campesinos y de los agricultores respetuosos con el entorno, protección del medioambiente y la salud, protección contra la contaminación causada por los pesticidas, modificación de una organización del territorio orientada hacia lo urbano, reorientación de la movilidad de las personas y las mercancías hacia medios de transporte suaves como el ferrocarril o las vías acuáticas, movilización de la investigación científica para favorecer la creación de tecnologías ecológicas, cooperación y co-elaboración con los países del sur, derecho a la soberanía alimentaria, desarrollo de relaciones internacionales en base a la resolución de conflictos, defensa de los derechos fundamentales de las personas (derecho de asilo, derecho de voto para los emigrantes…) y de las libertades individuales, extensión de la democracia a través de vías participativas, refuerzo de los poderes de la justicia respecto a los paraísos fiscales y las practicas mafiosas, respeto a los territorios e identidades culturales en el marco de una Europa federal, reducción del tiempo de trabajo en paralelo a los incrementos en productividad…

* * *

Este nuevo espacio político portador de una nueva política de regulación solo se puede concebir a nivel Europeo, puesto que Europa es nuestra familia, y sin fronteras puesto que el mundo es nuestro pueblo.

Europa es la primera que debe de adoptar medidas puesto que ha explotado más que ninguna otra región sus recursos naturales y los de sus antiguas colonias para construir su pujanza. Incluso hoy, todavía consume más recursos de los que dispone. Su huella ecológica, como la del conjunto de los países industrializados, excede la capacidad biológica del planeta. De media, cada habitante de la Unión Europea utiliza al menos dos veces más de superficie productiva que la biocapacidad disponible. La reducción de este impacto destructivo constituye una prioridad insoslayable. De la misma manera, Europa debe de pagar su deuda. Su desarrollo económico, como el de todos los países industrializados, se efectúa a costa de una extracción masiva de recursos naturales a nivel global. De esta manera Europa se ha convertido en un deudor ecológico masivo a nivel global. Esta deuda marca la relación de la Unión Europea con los países del sur. Los países del sur deben de contar con Europa. A pesar de sus defectos de nacimiento y sus practicas a menudo tecnócratas la Unión Europea ha construido un espacio de paz y cooperación entre los veintisiete estados y 80 pueblos que la componen. La UE se ha sabido interponer como una fuerza conciliatoria en los conflictos. Este es un logro formidable teniendo en cuenta su pasado violento. Sus distintas culturas han demostrado que pueden vivir en paz y enriquecerse mutuamente en un mundo caracterizado por la violencia multipolar y los rebrotes nacionalistas.

También es gracias a Europa que ciertas cuestiones vitales han podido escapar a los egoísmos nacionales y se han encaminado hacia una resolución a nivel del interés general. Europa, por ejemplo, ha sabido ponerse al frente de la lucha contra el cambio climático, ha fomentado la conservación de los espacios naturales y ha sabido imponer restricciones a la industria química…

Más que nunca necesitamos a Europa: porque es en Europa donde tienen lugar la mayor parte de las decisiones políticas que tocan más íntimamente la vida de los ciudadanos, porque ésta constituye nuestra mejor plataforma para abordar los problemas transnacionales, porque Europa podría ser la mejor defensora de los derechos sociales y el medioambiente y construir un modelo alternativo al de la globalización, porque estamos convencidos de que los Estados-Nación solo ofrecen una respuesta parcial e inadaptada a los riesgos globales a los que nos enfrentamos.

Pero la UE no parece una entidad capaz de regular los equilibrios globales según criterios de justicia social y del medioambiente. Sus derivas liberales tienden a confundir lo epifenomenal de una globalización caótica, y se convierte en un acelerador de este procesos. De esta manera los pueblos rechazan Europa porque no se reconocen en sus instituciones. Esto no es sorprendente ya que a los ciudadanos solo se les habla de competitividad y competencia, como si el mercado fuese el único objetivo. Europa está más presente en sus vidas cotidianas que en sus horizontes. Ha llegado el momento de que los Europeos se identifiquen con la perspectiva política de una Europa solidaria y duradera. Poniéndose como meta el ecologismo y lo social, Europa podría convertirse en el motor de una nueva civilización.

Seamos lucidos pero no tengamos miedo. La crisis global a la que se enfrenta la civilización puede ser superada. La humanidad está obligada a reaccionar y cambiar. Posee los medios para ello. Lo que no tiene claro es el objetivo. La intensidad de la presente crisis ofrece paradójicamente la oportunidad de crear las bases para un nuevo mundo construido sobre los mejores valores humanos y que sea capaz de movilizar la inteligencia y la energía a favor de la creatividad, de renovar la democracia y rehabilitar la política. Con la Europa ecológica y social, tenemos la ocasión de encauzar nuestro destino y vivir mejor. ¡Solo a nosotros nos corresponde el aprovechar esta oportunidad!

Han participado en la elaboración de este manifesto los miembros del comité de campaña : François Alfonsi, Danielle Auroi, Jean Paul Besset, Michel Bock, Sylvie Bouleau, José Bové, Yves Cochet, Daniel Cohn Bendit, Cécile Duflot, Pascal Durand, Patrick Farbiaz, Hélène Gassin, Jérôme Gleyses, Rémi Guerber, Marie Isler Beguin, Yannick Jadot, Bernard Jomier, Didier Jouve, Erwan Lecoeur, Patrice Miran, Denis Pingaud, Marianne Robert-Kerbrat, Jean Marc Salmon, Agnès Sinaï, Toufik Zarrougui.

Traducido del francés para EcoPolítica por Francisco Seijo, miembro del comité de Ecopolítica.