Rifa-se Um Coração
(Quase Novo)
Clarice Lispector
Rifa-se um coração quase novo.
Um coração idealista.
Um coração como poucos.
Um coração à moda antiga.
Um coração moleque que insiste em pregar peças no seu usuário.
Rifa-se um coração que na realidade
está um pouco usado, meio calejado, muito machucado
e que teima em alimentar sonhos, e cultivar ilusões.
Um pouco inconseqüente
que nunca desiste de acreditar nas pessoas.
Um leviano e precipitado,
coração que acha que Tim Maia estava certo
quando escreveu... "não quero dinheiro,
eu quero amor sincero, é isso que eu espero...".
Um idealista...
Um verdadeiro sonhador...
Rifa-se um coração que nunca aprende.
Que não endurece,
e mantém sempre viva a esperança de ser feliz,
sendo simples e natural.
Um coração insensato que comanda o racional
sendo louco o suficiente para se apaixonar.
Um furioso suicida que vive procurando relações
e emoções verdadeiras.
Rifa-se um coração que insiste
em cometer sempre os mesmos erros.
Esse coração que erra, briga, se expõe.
Perde o juízo por completo em nome de causas e paixões.
Sai do sério e, às vezes revê suas posições
arrependido de palavras e gestos.
Este coração tantas vezes incompreendido.
Tantas vezes provocado. Tantas vezes impulsivo.
Rifa-se este desequilibrado emocional que,
abre sorrisos tão largos que quase dá pra engolir as orelhas,
mas que também arranca lágrimas e faz murchar o rosto.
Um coração para ser alugado,
ou mesmo utilizado por quem gosta de emoções fortes.
Um órgão abestado
indicado apenas para quem quer viver intensamente e,
contra indicado para os que apenas pretendem passar pela vida
matando o tempo, defendendo-se das emoções.
Rifa-se um coração tão inocente
que se mostra sem armaduras e deixa louco o seu usuário.
Um coração que quando parar de bater
ouvirá o seu usuário dizer para São Pedro na hora da prestação de contas:
" O Senhor poder conferir", eu fiz tudo certo,
só errei quando coloquei sentimento.
Só fiz bobagens e me dei mal
quando ouvi este louco coração de criança
que insiste em não endurecer e, se recusa a envelhecer".
Rifa-se um coração, ou mesmo troca-se por outro
que tenha um pouco mais de juízo.
Um órgão mais fiel ao seu usuário.
Um amigo do peito que não maltrate tanto o ser que o abriga.
Um coração que não seja tão inconseqüente.
Rifa-se um coração cego, surdo e mudo,
mas que incomoda um bocado.
Um verdadeiro caçador de aventuras que,
ainda não foi adotado, provavelmente,
por se recusar a cultivar ares selvagens ou racionais,
por não querer perder o estilo.
Oferece-se um coração vadio, sem raça, sem pedigree.
Um simples coração humano.
Um impulsivo membro de comportamento até meio ultrapassado.
Um modelo cheio de defeitos que,
mesmo estando fora do mercado,
faz questão de não se modernizar, mas vez por outra,
constrange o corpo que o domina.
Um velho coração que convence seu usuário
a publicar seus segredos e, a ter a petulância
de se aventurar como poeta.
terça-feira, 21 de setembro de 2010
Saudades - poesia de Clarice Lispector
SAUDADES
Clarice Lispector
Sinto saudades de tudo que marcou a minha vida.
Quando vejo retratos, quando sinto cheiros,
quando escuto uma voz, quando me lembro do passado,
eu sinto saudades...
Sinto saudades de amigos que nunca mais vi,
de pessoas com quem não mais falei ou cruzei...
Sinto saudades da minha infância,
do meu primeiro amor, do meu segundo, do terceiro,
do penúltimo e daqueles que ainda vou ter, se Deus quiser...
Sinto saudades do presente,
que não aproveitei de todo,
lembrando do passado
e apostando no futuro...
Sinto saudades do futuro,
que se idealizado,
provavelmente não será do jeito que eu penso que vai ser...
Sinto saudades de quem me deixou e de quem eu deixei!
De quem disse que viria
e nem apareceu;
de quem apareceu correndo,
sem me conhecer direito,
de quem nunca vou ter a oportunidade de conhecer.
Sinto saudades dos que se foram e de quem não me despedi direito!
Daqueles que não tiveram
como me dizer adeus;
de gente que passou na calçada contrária da minha vida
e que só enxerguei de vislumbre!
Sinto saudades de coisas que tive
e de outras que não tive
mas quis muito ter!
Sinto saudades de coisas
que nem sei se existiram.
Sinto saudades de coisas sérias,
de coisas hilariantes,
de casos, de experiências...
Sinto saudades do cachorrinho que eu tive um dia
e que me amava fielmente, como só os cães são capazes de fazer!
Sinto saudades dos livros que li e que me fizeram viajar!
Sinto saudades dos discos que ouvi e que me fizeram sonhar,
Sinto saudades das coisas que vivi
e das que deixei passar,
sem curtir na totalidade.
Quantas vezes tenho vontade de encontrar não sei o que...
não sei onde...
para resgatar alguma coisa que nem sei o que é e nem onde perdi...
Vejo o mundo girando e penso que poderia estar sentindo saudades
Em japonês, em russo,
em italiano, em inglês...
mas que minha saudade,
por eu ter nascido no Brasil,
só fala português, embora, lá no fundo, possa ser poliglota.
Aliás, dizem que costuma-se usar sempre a língua pátria,
espontaneamente quando
estamos desesperados...
para contar dinheiro... fazer amor...
declarar sentimentos fortes...
seja lá em que lugar do mundo estejamos.
Eu acredito que um simples
"I miss you"
ou seja lá
como possamos traduzir saudade em outra língua,
nunca terá a mesma força e significado da nossa palavrinha.
Talvez não exprima corretamente
a imensa falta
que sentimos de coisas
ou pessoas queridas.
E é por isso que eu tenho mais saudades...
Porque encontrei uma palavra
para usar todas as vezes
em que sinto este aperto no peito,
meio nostálgico, meio gostoso,
mas que funciona melhor
do que um sinal vital
quando se quer falar de vida
e de sentimentos.
Ela é a prova inequívoca
de que somos sensíveis!
De que amamos muito
o que tivemos
e lamentamos as coisas boas
que perdemos ao longo da nossa existência...
Clarice Lispector
Sinto saudades de tudo que marcou a minha vida.
Quando vejo retratos, quando sinto cheiros,
quando escuto uma voz, quando me lembro do passado,
eu sinto saudades...
Sinto saudades de amigos que nunca mais vi,
de pessoas com quem não mais falei ou cruzei...
Sinto saudades da minha infância,
do meu primeiro amor, do meu segundo, do terceiro,
do penúltimo e daqueles que ainda vou ter, se Deus quiser...
Sinto saudades do presente,
que não aproveitei de todo,
lembrando do passado
e apostando no futuro...
Sinto saudades do futuro,
que se idealizado,
provavelmente não será do jeito que eu penso que vai ser...
Sinto saudades de quem me deixou e de quem eu deixei!
De quem disse que viria
e nem apareceu;
de quem apareceu correndo,
sem me conhecer direito,
de quem nunca vou ter a oportunidade de conhecer.
Sinto saudades dos que se foram e de quem não me despedi direito!
Daqueles que não tiveram
como me dizer adeus;
de gente que passou na calçada contrária da minha vida
e que só enxerguei de vislumbre!
Sinto saudades de coisas que tive
e de outras que não tive
mas quis muito ter!
Sinto saudades de coisas
que nem sei se existiram.
Sinto saudades de coisas sérias,
de coisas hilariantes,
de casos, de experiências...
Sinto saudades do cachorrinho que eu tive um dia
e que me amava fielmente, como só os cães são capazes de fazer!
Sinto saudades dos livros que li e que me fizeram viajar!
Sinto saudades dos discos que ouvi e que me fizeram sonhar,
Sinto saudades das coisas que vivi
e das que deixei passar,
sem curtir na totalidade.
Quantas vezes tenho vontade de encontrar não sei o que...
não sei onde...
para resgatar alguma coisa que nem sei o que é e nem onde perdi...
Vejo o mundo girando e penso que poderia estar sentindo saudades
Em japonês, em russo,
em italiano, em inglês...
mas que minha saudade,
por eu ter nascido no Brasil,
só fala português, embora, lá no fundo, possa ser poliglota.
Aliás, dizem que costuma-se usar sempre a língua pátria,
espontaneamente quando
estamos desesperados...
para contar dinheiro... fazer amor...
declarar sentimentos fortes...
seja lá em que lugar do mundo estejamos.
Eu acredito que um simples
"I miss you"
ou seja lá
como possamos traduzir saudade em outra língua,
nunca terá a mesma força e significado da nossa palavrinha.
Talvez não exprima corretamente
a imensa falta
que sentimos de coisas
ou pessoas queridas.
E é por isso que eu tenho mais saudades...
Porque encontrei uma palavra
para usar todas as vezes
em que sinto este aperto no peito,
meio nostálgico, meio gostoso,
mas que funciona melhor
do que um sinal vital
quando se quer falar de vida
e de sentimentos.
Ela é a prova inequívoca
de que somos sensíveis!
De que amamos muito
o que tivemos
e lamentamos as coisas boas
que perdemos ao longo da nossa existência...
domingo, 30 de maio de 2010
África, literatura e cinema.
PARA QUEM GOSTA DA ÁFRICA
Texto de Demilson Figueiró Fortes
ÁFRICA para ler, assistir e ouvir. O livro A FAZENDA AFRICANA, da escritora Karen Christentze Blixen, que ficou conhecida pelo seu pseudônimo Isak Dinesen, deu origem ao filme ENTRE DOIS AMORES (titulo original é OUT OF AFRICA). Um grande livro. Um belíssimo filme. Um filme com uma trilha sonora formidável (de John Barry). Tudo digno da grandeza do Jardim do Édem. África: lá onde tudo começou. O continente berço da humanidade. Onde surgimos e de onde saímos para povoar o mundo.
O livro, trata da história autobiográfica de uma mulher dinamarquesa, de origem aristocrática, que nasceu em 1885. A obra literária foi publicada em inglês em 1937 e transformada em filme em 1985, sendo vencedor de sete oscar (melhor filme, melhor diretor, melhor trilha sonora, entre outros). A triz Meryl Streep é protagonista.
No início do século XX (1914 a 1931) ela assume a condução de uma fazenda no Quênia e passa a cuidar de uma plantação de café. Neste período o país estava sob domínio inglês. O relato é feito pelos olhos de uma mulher européia, mas que estabelece uma relação respeitosa e carinhosa com a cultura africana. Um depoimento cultural e antropológico, sem preconceitos, de quem viveu num mundo com enormes diferenças de seu modo de vida de origem, pois a distância entre Dinamarca e Quênia não é somente geográfica. Entremeados de alegrias, prazeres, lamentos, decepções, sofrimentos. Coisas humanas. Um retrato admirável de um período e de povos quase desconhecidos.
Ler o livro e assistir o filme é um passeio pelo Quênia. Aliás, um belo passeio. No filme, a trilha sonora de música clássica faz sonhar, viajar, voar. Sim, faz voar. Há uma passagem mágica, que é das mais belas do cinema, onde em um pequeno avião os dois personagens sobrevoam as montanhas Ngong. “Essas montanhas, que se enquadram entre as mais bonitas do mundo, são especialmente belas quando vistas do ar, com seus costados que se erguem e galopam lado a lado com o aeroplano, ou, então, subitamente caem abruptamente e se achatam numa planície” (trecho do livro). No filme, com uma trilha sonora majestosa, temos a sensação de voar sobre as montanhas da África.
Uma fazenda em que no cotidiano em que sair pra dar um passeio é ter a grande probabilidade de cruzar com zebras, macacos, elefantes, leões, leopardos, veados (hienas, antílopes), girafas, búfalos, bugios, javalis, perdizes, lagartos, onças, flamingos, lebres, cegonhas, crocodilos, águias, pombas e outros pássaros.
Na África Queniana, do início do século XX, a natureza se apresenta imensa, diversa, parecendo infinita e indomável: savanas, planícies, rios, montanhas, animais vários tipos. Uma biodiversidade rica. Mas pra além da natureza em si, as tribos humanas, seus costumes, valores, relações, modo de pensar. Isso que denominamos de cultura.
Destacam-se os povos Somalis, Kikuyo e Masai. Os somalis de influência cultural árabe e hábitos muçulmanos, são religiosos, não tocam em cachorros e os casamentos são arranjados pelos mais velhos e se compra a noiva dando em troca cabras e vacas, por exemplo. Nos funerais, os mortos humanos dos nativos são deixados ao ar livre, para os urubus comerem. Para os Kikuyos os homens podem ter várias esposas, e assim geralmente tinham muitos filhos, como o chefe Kinanjui, que tinha várias esposas e 55filhos. As mulheres nativas Kikuyos e Somalis raspam os cabelos quando crianças e isto se tornou um símbolo da feminilidade entre eles. Os Kikuyos são povos valentes, não temem a morte e a dor, mas que temem tocar um cadáver e temem as tormentas. A justiça, para os povos tradicionais, de várias tribos, era uma assembléia dos mais velhos, que estabeleciam as penalidades aos acusados, que para eles deve ser a indenização da vítima, como por exemplo, pagar 50 camelos ao outro. Apesar dos casamentos arranjados e a noiva serem compradas, é forte o poder de sedução das mulheres somalis sobre seus homens. Esses e outros tantos hábitos dos nativos eram muito rigorosos, parecendo, segunda a escritora, serem imutáveis, irredutíveis, optando em morrer do que mudar a sua maneira de ser. Alguns nômades, alguns mais religiosos, alguns mais guerreiros. Eles também têm as suas diferenças, seus rituais próprios, e sob o domínio colonial europeu tiveram que forçadamente se integrar aos brancos.
Uma historia da experiência de vida. E na vida, como na ficção, há romances, alegrias, dores, lamentos, dificuldades no trabalho, sofrimentos com perdas materiais e humanas. Uma mulher entre dois amores e tendo que dar respostas as coisas que se colocavam a sua frente, num mundo muito diferente da sua cultura de origem. Mas o fracasso em alguns aspectos da vida não significa não ter valido a pena. Karen Blixen legou a literatura mundial uma bela história de vida e Meryl Streep a interpretou de forma magistral no cinema. Literatura, cinema e música, uma combinação perfeita. Pela premiação de sete oscar e mais quatro indicações parece indicar que não se trata de um filme comum. E definitivamente não é. É prazeroso ler o livro, assistir o filme e ouvir a trilha sonora. Fazer isso muitas vezes. E, olhar com carinho a África. África: nossa origem e nossa casa.
Demilson Figueiró Fortes
domingo, 20 de dezembro de 2009
Rio de Janeiro
O RIO DE JANEIRO CONTINUA LINDO
Texto de Demilson Figueiró Fortes
Encontrar algo interessante na televisão, muitas vezes, se torna uma tarefa difícil, mas em algumas oportunidades nos surpreendemos com algo que nos atrai, seja em que programa for naquelas trocas de canais com o controle remoto. Foi isto que aconteceu comigo no sábado, dia 28 de novembro de 2009 quando liguei a TV e passando por alguns canais buscando algo que acharia difícil encontrar parei por alguns minutos por curiosidade para ver o quadro que chamado de vou de táxi, do programa caldeirão do apresentador Luciano Huck, da rede globo. De três passageiros do taxi, uma chamava-se Raimunda do Carmo, e é uma história emblemática das mulheres pobres de nosso país. Raimunda é pobre, negra, moradora do morro Dona Marta, jovem de 31 anos, tem três filhos, a mais velha, Isabela com 16 anos, que ela teve aos 15 anos de idade. Ela é mãe de Isac, de onze anos e de Gabriel, de nove anos. Mulher lutadora, ela trabalha em um pequeno salão de beleza que se chama safira, que funciona na sala de sua própria casa, em que atende as pessoas ali e também a domicilio, faz tinturas, escova, alisamento, pés e mãos da clientela. A casa é um pequeníssimo barraco, que a partir daquele momento foi escolhido por Luciano para ser reformado no quadro lar doce lar. Raimunda batalha para ganhar a vida todos os dias, e fatura R$ 300,00 por mês, e é com este valor que sustenta a sua família, da qual ela é a chefe, pois não tem marido. Ela conta que perdeu três primos e viu outros conhecidos morreram, no conflito entre traficantes e policiais. Contou que o morro já foi diferente há mais de 20 anos atrás, que os policiais tinham mais respeito pela comunidade e os próprios traficantes os temiam. Com o tempo virou o que vimos na TV com freqüência, os traficantes dominando o território, subordinando uma comunidade inteira à sua vontade, e com freqüentes enfrentamentos, onde os civis sem envolvimento com o crime, infelizmente indefesos, sempre são de alguma forma atingidos. Segundo ela, um dos fatores que levou a isso foi a corrupção policial e a falta de oportunidades par os jovens que vivem no morro. Raimunda nasceu e cresceu no morro sem se envolver com o crime. Sua mãe, dona Maria do Carmo, nasceu há 64 anos e ali vive há mais de 40 anos. A família toda soma 50 integrantes.
A história de Raimunda do Carmo emociona e nos instiga a refletir. Por todas as suas características, uma delas é que se assemelha a de milhares de mulheres que são responsáveis pelo sustento e condução de suas famílias, sem homens como provedores. Neste caso, o seu pai, seu Raimundo é uma referência moral, mas ela é que educa, cuida e é provedora financeira de seus filhos. No Brasil, os números do censo do IBGE indicam que cada vez mais mulheres assumem a condução de suas famílias ou até mesmo são formadas, exclusivamente de mulheres. Mas, Raimunda é mais, é do morro, sobrevivente, lutadora, mãe e pai ao mesmo tempo, dessas que sobem e descem as escadarias do morro, todos os dias. Apesar da vida de luta há sorrisos nos rostos, educação e muita dignidade. Nos choca pela realidade dura, em que vivem os moradores dos morros, que é a mesma em várias regiões do Brasil, este país de imensa desigualdade social, características que insiste em marcar o país. Raimunda nasceu e cresceu no Rio, mas nunca tinha subido no Corcovado, fato que evidencia que a cidade pode oferece muitas coisas, mas há um fosso entre quem tem acesso e outros que quase sempre ficam do lado de fora.
A coisa mais interessante quando temos a oportunidade de penetrar na vida dos moradores de comunidades como esta é poder humanizá-los e ter um olhar mais próximo (individual e coletivo), fora do conflito polícia versus bandidos. E o que chama atenção é aquilo que já sabemos, mas sempre temos que ser lembrados: que apesar de existirem grupos criminosos ligados ao tráfico de drogas, a maioria das pessoas que moram nas comunidades é formada por pessoas trabalhadoras simples, mas com muita dignidade e com vontade enorme de superar seus problemas, ter paz e ser feliz com os seus familiares e amigos. A família de Raimunda, começando por ela própria, que viveu em um ambiente de conflitos, de crime organizado, de medo e corrupção, mas não se renderam a isso, não se entregaram. Por cima do muro da violência, onde tende a predominar a desesperança, conseguiram o que para os que estão de fora às vezes parece o impossível: ver outras possibilidades, sem drogas e sem violência. Apesar do crime, da polícia corrupta, do Estado ausente e irresponsável, das elites opulentas e um país de enormes desigualdades sociais, milhares de pessoas se mantém dignas, sonhadoras, e surpreendentemente sorridentes. A família de Raimunda sobreviveu ao crime, como família agregada e solidária, que educaram seus filhos para não irem servir ao tráfico.
Na comunidade Santa Marta fica o morro Dona Marta, que abriga em torno de cinco mil habitantes e que para felicidade geral da nação, está pacificado. Depois de muitos anos de domínio de traficantes, agora há pouco tempo, com uma intervenção governamental, que une os governos, municipal, do estado e, o governo federal (obras do PAC), a comunidade está em paz, sem tiroteios e sem medo. Relatam que a vida por lá é outra, agora andam tranqüilos e se sentem novamente sujeitos em seu ambiente. Esta ação é parte de um plano estratégico de ir limpando crime ligado tráfico as comunidades e ir levando serviços do Estado como educação, saúde e lazer, uma polícia comunitária integrada à comunidade. No morro Dona Marta se vê quadras de esportes e casa de música para os jovens ocuparem seu tempo e terem acesso a esporte e cultura, e, além disso, existem outros projetos em andamento, que Inclui programa de melhoria das moradias. A secretaria de urbanismo da cidade do Rio de Janeiro está fazendo um trabalho de regularização dos terrenos no morro. A comunidade Dona Marta é pop, já recebeu Michael Jackson e Madona, coisa que não é pra qualquer lugar. Um lugar onde as ruas são escadarias; são vielas que se abrem e se desdobram em outras, o que desafia pensá-lo urbanisticamente, pois sempre é mais fácil pensar em quadrados do que e mosaicos.
Quando vimos o depoimento dos moradores da comunidade Dona Marta de que a vida mudou pra melhor nos últimos tempos, sem traficantes e com presença do Estado, chegamos a conclusão óbvia - até para crianças um pouco bem informadas - de que o crime avança e se enraíza por falta de ações do Estado e de uma sociedade omissa e desigual. É até indignante quando ouvimos os relatos e nos deparamos com o óbvio: se tivesse mais amparo para as comunidades carentes, mais investimentos sociais nessas áreas, uma polícia mais preparada e ética, com absoluta certeza, não teríamos tantas perdas de jovens para o crime, por mortes, não teríamos tantas famílias destruídas, e uma cidade tão deformada e violentada como se tornou o Rio de Janeiro nas últimas décadas. Quem nasce e é morador do morro tende a sofrer a vida toda de exclusão, violência e preconceito.
O que isso nos ensina e nos faz novamente acreditar é que a mudança para melhor é possível, que está ao nosso alcance. Que o crime organizado que tanto mal faz as comunidades carentes é vencível, desde que se queira vencê-lo. E a fórmula todos nós já sabemos: investimentos sociais nas pessoas e no seu ambiente. Cada criança e cada jovem que mora em alguma comunidade deviam ser adotadas pelo país, com programas de transferência de renda, de garantia de escolas, de lazer, de acesso a cultura. É preciso disputar cada jovem e fortalecer as famílias, enfrentando com determinação o crime organizado e a polícia corrupta e criminosa. A fórmula todos nós já sabemos, basta implementá-la. Deve fazer parte de uma estratégia, diminuir a desigualdade social, pois é enorme a distância entre ricos e pobres - que é um abismo - no Brasil. Se, por exemplo, os 10% mais ricos do país contribuíssem com uma fração a mais à sociedade, poder-se-ia com facilidade mudar a vida de milhares de famílias da periferia e do próprio país, que acreditaria mais nas suas potencialidades e os telejornais teriam menos violência para mostrar, poderiam mostrar coisas maravilhosas nascidas nas comunidades, como arte, esporte, cultura, invenções, e principalmente pessoas vivendo felizes. No caso particular da Raimunda ela ganhou do programa uma nova casa para viver com a sua família. Mas, devemos querer que todos os moradores da comunidade tenham suas casas renovadas e possam ter uma habitação com o conforto que todo ser humano merece. Habitação é o sonho de toda família e toca diretamente na autoestima das pessoas. O Brasil é rico e pode proporcionar isso a todos os seus filhos. Na nova casa, de Raimunda, todos terão espaço para exercer a sua vida privada, coisa que os moradores no morro não têm, pois moram muitas pessoas em um só barraco, dormem em um só quarto, ou dormem na sala ou na cozinha. As pessoas crescem sem saber o que é privacidade e sem ter o seu próprio espaço. O Brasil pode e deve. Há uma divida social gigantesca com os brasileiros pobres. É preciso dividir a riqueza, socializar a renda, e assumir o amparo das crianças e jovens como patrimônio nacional. Ainda, vergonhosamente, em nosso país, pouquíssimas famílias concentram muita riqueza e, de outro lado, milhões vivem na pobreza e sem a perspectiva de um futuro melhor. Mas as Raimundas estão por aí, mostrando ao país, que seus filhos não fogem a luta e precisam urgentemente serem incluídos, e que apesar de tudo, os pobres insistem na luta pela dignidade humana e tem esperanças de um futuro diferente e acreditam sim, em um país que seja bom para todos, e não somente para uma minoria rica, privilegiada, opulenta e arrogante, como é a elite econômica brasileira.
Em outubro deste ano eu estive no Rio de Janeiro participando de um curso promovido pela FASE, Centro Ecológico e Fundação Henrich Boll. O curso aconteceu no Bairro Santa Teresa, um bairro antigo, que ainda conserva casas de arquitetura antiga, muitos sobrados. Ali circula o bonde elétrico, que é parte do cartão postal da cidade. Uma parte do bairro foi ocupada por comunidades carentes, que povoam o morro com barracos típicos do que define por favela. Do terraço do Colégio Assunção pode-se avistar muitos morros densamente habitados, com casas que se sobrepõem umas as outras, como empilhadas, com as mesmas características de tijolos aparentes, lajes de concreto, colados um ao outro, que foram se unindo umas as outras aleatoriamente. O interessante da cidade do Rio de Janeiro é que as comunidades carentes estão por todos os lados, convivendo como vizinhos com os condomínios onde moram os ricos. A impressão, sentida por alguém que é de fora, quando se está no Rio de Janeiro é de aglomeração, de não ter lugar pra fugir, de estar-se encurralado. Rio de Janeiro é uma encosta de morros que dão para o mar, uma cidade cercada de morros, é mais compacta, diferente de São Paulo, que é mais espalhada horizontalmente. No Rio de Janeiro as comunidades carentes estão mais visíveis, pois estão amostras em cima dos morros, verticalmente colocadas. Estão ali perto, por todos os lados.
“Rio 40 graus, cidade maravilha, purgatório da beleza e do caos”, assim diz a música cantada por Fernanda Abreu. Nos três dias que estive no Rio de Janeiro foi possível ter uma pequena amostra da violência que os moradores convivem cotidianamente, quando se ouviu tiros trocados entre policiais e traficantes bem próximos de onde estávamos. E o medo de sair do prédio ou na rua em frente. Mas mesmo com certo receio, um grupo de pessoas presentes no curso saiu à noite, fomos percorrer a Lapa e conhecer pontos como os conhecidíssimos arcos da lapa e alguns bares, distante 10 minutos de onde estávamos. E valeu a pena ir conhecer a Lapa, bairro tradicional de boemia carioca. Fomos a um lugar chamado Boteco do Juca que estampa as bandeiras do Brasil e de Portugal, tem samba de raiz de alta qualidade, curtido ao vivo e com chope gelado. Era terça-feira e muitas casas de dança estavam lotadas ou com bom público. Samba de gafieira está fortemente presente. Voltamos às duas horas da manhã sem nenhum problema, a troca de tiros acontecera de tarde e agora tudo já estava em paz. Os habitantes da cidade aprenderam forçadamente a conviverem com a violência e tocarem a vida. Após os tiros tudo volta ao normal, não tem outra saída. Do terraço superior o Colégio Assunção se uma visão panorâmica da cidade e se pode ver – quase que hipnotizado - a Bahia da Guanabara, o Cristo Redentor, o Corcovado, o estádio do Maracanã e outros pontos da cidade maravilhosa. Apesar de tudo, como canta Gilberto Gil no bonito samba intitulado Aquele Abraço: “O Rio de Janeiro continua lindo”.
Demilson Figueiró Fortes
Chapecó, SC, dezembro de 2009.
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
UM OLHAR SOBRE SÃO PAULO
UM OLHAR DE VISITANTE SOBRE A CIDADE DE SÃO PAULO
Texto de Demilson Figueiró Fortes
Da janela do segundo andar do museu, no centro da cidade tenho uma visão do agradável jardim, com palmeiras, bromélias e outras plantas tropicais, alguns bancos para as pessoas sentarem, um café que quase entra jardim adentro, onde várias pessoas conversam em paz. Estou no museu Anchieta, um prédio simples, mas de relevância cultural, pois é o local de fundação da cidade, ali tem vários objetos sacros, de importância histórica. Numa das salas do museu uma maquete reproduz a imagem que tiveram os jesuítas, quando chegaram à região em 1554, há 455 anos: uma paisagem verde recobre o terreno ondulado, vegetação exuberante de mata atlântica. Agora, uma paisagem urbana, de concreto continuo, com 11 milhões de habitantes, que é a capital dos paulistas. São 18 milhões de pessoas na grande região metropolitana que engloba 39 municípios, o que faz da região um dos maiores aglomerados humanos do mundo, atrás somente de Tóquio, Cidade do México e Mumbai.
Como outras cidades populosas, São Paulo nasceu do nada e cresceu. E, como cresceu. Houve tempos diferentes, que ficaram para trás, como a São Paulo em que viveu Adoniram Barbosa, que compôs a música: “Moro em Jaçanã, se eu perder esse trem, só amanhã de manhã”, clássico do samba brasileiro. São Paulo se agigantou, ainda tem trens, mas atualmente tem metrô, centenas de ônibus e as ruas entupidas com milhões de carros.
Em fevereiro deste ano, de férias, fui visitar meu irmão e sua família que residem na cidade de São Paulo há alguns anos. São moradores da zona norte, bairro Jaçanã, o mesmo de Adoniram. É a quarta vez que vou a São Paulo a passeio, mas já passei pelo aeroporto, pelo menos umas quatro vezes, fazendo escala, indo para outros lugares. Posso dizer hoje que tenho simpatias pela cidade de São Paulo. Reconheço que é diferente visitar e ficar uns dias, de morar, e ter de enfrentar a cidade todos os dias. Mas a minha visão contrasta geralmente com a maioria das pessoas de fora, que se apressam em evidenciar os problemas da cidade, que são muitos. Mas afirmo que com disposição para conhecer, logo se verá que a metrópole não se resume a violência e caos. Muito pelo contrário, surpreende e cativa.
A cidade de São Paulo é a síntese do país, com riqueza e oportunidades, mas ao mesmo tempo a manifestação latente da pobreza, exclusão social, violência urbana sentida no cotidiano, concentração de riqueza, opulência dos ricos, com as pessoas – principalmente as mais humildes - sofrendo as conseqüências da degradação do meio ambiente e do espaço público. Uma coisa é certa: a megalópole São Paulo está condicionada a equacionar os seus problemas com foco na coletividade, no planejamento urbano, e na insistência ao otimismo a humanização dos espaços, com buscas de formas de sociabilidade e convivência. É preciso sentir-se parte dos problemas e das soluções. É preciso não resignar-se, não aderir ao fatalismo pessimista e a alienação cotidiana, que tende a condicionar as mentes e enrijecer os corações. E aos descrentes de tudo devo dizer: a solução está nas pessoas e na política. Está na sensibilidade e na criatividade humana e na política como arte humana de debater seus próprio problemas e solucioná-los. E aos individualistas, lamento dizer: não há futuro algum, se não focar nas coletividades. Mesmo que os burgueses tentem suas fugas nos helicópteros e carros blindados. A história se move no sentido oposto ao individualismo. A história está ao lado de quem usa metrô, ônibus, bicicleta e anda a pé.
Definida a viagem, consultei o preço de passagem de ônibus de Porto Alegre a São Paulo, conferi que tava em torno de R$ 159,00. Consultando o preço das passagens áreas tinha por R$ 159,00 de ida e R$ 139,00 de volta, mais taxa de embarque, totalizando R$ 337,00 uma passagem ida e volta, comprada em seis vezes, sem juros, no cartão de crédito. Do aeroporto Salgado Filho em Porto Alegre ao de Guarulhos foram uma hora e quarenta minutos de avião, partiu as 13:30 h e chegou as 15:10, pontualmente.
A primeira vez que vi a cidade de São Paulo do avião, fiquei impactado. Realmente, a metrópole impressiona. Da janela do avião, fiquei tentando captar tudo o que podia, até onde a vista alcançava. E até onde a vista alcança é um continuo de casas, prédios, telhados, lajes de concreto, ruas, calçadas, avenidas, estradas. E certas ilhas verdes, que algumas pude vir a conhecer posteriormente. A primeira pergunta que nos vem a cabeça é como pode, toda aquela gente viver naquele espaço? E ao mesmo tempo, respondemos pra nós mesmos, outra pergunta: porque vimos na televisão tantos alagamentos? Parece tão óbvio: os espaços para a água da chuva se infiltrar é muito reduzido, é (quase) tudo concreto. O terreno todo sem espaço para infiltração associado ao lixo que vai parar nos bueiros tem com resultado os freqüentes alagamentos. Com algumas chuvas intensas, em questão de menos de cinco minutos quem está na parte mais abaixo da cidade fica no aguaceiro. Tem um professor que vi na televisão conceituando aquilo tudo de deserto, pois, segundo ele, o que caracteriza o deserto é areia, e ali a diferença é que a areia é misturada com cimento e tijolos.
São Paulo se apresenta na primeira impressão como uma cidade sem graça, sem colorido, um tanto cinzenta. Com bairros que se colam um no outro, de casas, cheias de grades, pichações, de predominância do concreto. Mas basta ir conhecendo que se vai aprendendo a gostar, a ver pra além do concreto e das grades. Se a pessoa se dispuser a isso vai ter surpresas agradáveis, conhecer mundos diferentes, até inimagináveis, que a televisão não consegue mostrar, e que nossos preconceitos também se negam a enxergar. Pra quem gosta de cultura, no novo, do diferente, a metrópole é riquíssima e pode se falar no plural, “culturas”. E pra quem chega esperando assaltos, violência crua nas ruas, pode se surpreender. É claro que falo do ponto de vista de um visitante, que não penetrou nos bairros da periferia, mas de um visitante que andou de ônibus, lotação, metrô, a pé em muitos locais. Talvez por pura sorte.
A metrópole é multicultural, multiracial, multiétnica. Cidade que acolheu milhões de imigrantes de vários cantos do mundo e do próprio país. Além dos nordestinos, gaúchos, e todos os outros estados, se encontra em São Paulo os libaneses, japoneses, chineses, bolivianos, judeus, e muitas outras etnias, raças, culturas. É ali que sai anualmente a maior manifestação contra o preconceito homossexual do mundo, a parada gay. É ali que saiu as maiores manifestações políticas do país. É ali que tem os maiores templos evangélicos do mundo. E todos convivem. É certo que os ricos sempre aproveitam melhor o que a cidade tem a oferecer. Mas há pluralidade. Quando se passa no Bairro Liberdade tem-se a sensação de entrar no Japão, e são nipobrasileiros.
Segundo a Revista Welcome On Board (novembro de 2008), de distribuição gratuita no aeroporto de Congonhas, a cidade de São Paulo tem 48 shoppings, e atraem 3 milhões de pessoas a cada dia. A reportagem define-os como “modernos templos de convívio, lazer e consumo”. Para este ano de 2009, está previsto mais quatro. Isso faz de São Paulo a cidade que mais tem shopping Center no mundo, nem a cidade de Nova York, centro mundial de turismo internacional, e consumo do padrão Estados Unidos tem tantos shoppings.
A cidade estruturou a sua economia ao longo do século XX em inúmeras fábricas que produziam de forma diversificada, como carros, máquinas, equipamentos, eletrodomésticos, alimentos, e muitos outros ramos. Na metade da década de 40 já tinha 14 mil fábricas e já era o maior centro industrial da América Latina. Na década de 60 a cidade tinha mais de 50 mil indústrias e empregava 1 milhão de operários, neste período a cidade ganha grandes projetos de infraestrutura como viadutos, pontes, grandes rodovias que margeiam os rios Pinheiros e Tietê. Em 1960 a cidade tinha 3,7 milhões de habitantes. Em 1970 tinha 5,9 milhões. Em 1980 tinha 8,5 milhões. Em 1991 já tem 9,6 milhões de pessoas, e no ano 2000 chegou a 10,5 milhões de habitantes. Em 2009 ultrapassa 11 milhões de moradores.
De cidade industrial ao longo do tempo foi se transformando em economia diversificada, transitando para ser uma cidade principalmente de serviços. Mesmo tendo uma base industrial grande ainda, outra economia baseada como, por exemplo, em indústrias de inovação tecnológica, gestão, inovação do conhecimento, serviços bancários, logística, gastronomia, tecnologia e serviços de saúde, entretenimento, moda e outros. São Paulo é um dos maiores centros financeiros do mundo e o maior da América Latina, onde funciona a sede de muitas multinacionais que atuam no continente. Uma das coisas que se destaca a metrópole atualmente é a da realização de eventos, que segundo dados, foram em média 90 mil eventos ao ano na década de 90. Em 2002 a cidade tinha 120 museus e 50 galerias de arte, e de lá pra cá muitas outras coisas foram criadas. A famosa de comércio popular a Rua 25 de março recebe em certas épocas mais de 1 milhão de pessoas que vem fazer compras. Pelo centro da cidade circulam em média dois milhões de pessoas diariamente. E em São Paulo existem mais de 50 pólos de comércio ultra-especializado, de vários ramos, que recebem compradores de várias partes do país. É a cidade de pobres e de ricos. A cidade só perde para Nova York na frota de helicópteros. E andando na noite vêem-se carros Ferrari, Porsch, e outras marcas, que evidenciam a opulência dos magnatas. Uma cidade que funciona 24 horas, se compra e se vende de tudo. Encontra-se de tudo.
Mas esta cidade gigante, plural, e global cresceu rápido e seus governantes não tiveram competência e compromisso social para criar as condições de ser um lugar menos inóspito para milhões. Com o crescimento vieram os problemas e os impactos ambientais se agravaram, com conseqüências vistas e sentidas enormemente hoje. Cada chuva que cai é um motivo de preocupação para os paulistanos, pois com freqüência ocorrem alagamentos de rodovias que dificultam ou paralisam o trânsito. Há muito concreto e asfalto contínuos, sem espaço para a infiltração da água. A poluição industrial já foi pior é verdade, mas ainda é de grande impacto na saúde das pessoas. Pesquisas recente nos Estados Unidos confirmaram que quem convive com poluição atmosférica das cidades vive menos, porque organismo sente o impacto, coração e pulmões se esforçam mais para trabalhar.
O Rio Tietê e Rio Pinheiros estão mortos na capital. Além de não possibilitar vida, são mal cheirosos, e enfeiam a cidade, que não se reconhece neles, parece um estorvo que tem a obrigação de conviver. Triste realidade para um povo e para um Rio. Visto que as cidades que tem Rios se orgulham, com eles convivem nas suas margens, como já foi o caso do Tietê (que tem 1.150 km de comprimento e cruza por várias cidades), que no início do século XX seus moradores o utilizavam para o lazer em competições como regata e natação, pescavam e tomavam banho com satisfação nas suas águas. Depois vieram as indústrias e o que se denominou de progresso, e a população se afastou, e se divorciou de seu Rio. No atual momento existem esforços para despoluí-lo, com investimentos pesados, mas insuficientes, pois precisa reestruturar uma base econômica que se ergueu vendo o Rio como poço de dejetos, de uma cidade que cresceu sem preocupação com saneamento, de uma população sem a cultura do respeito ao meio ambiente. A transição será longa e difícil, mas poderá acontecer, como mostram as experiências do Rio Tamisa em Londres, ou do Rio que corta Seul, na Coréia do Sul, que hoje despoluídos estão integrados a vida das pessoas da cidade. O projeto de despoluição do Rio Tiete vem sendo implementado há alguns anos e entra na sua terceira etapa, que está orçada em US$ 800 milhões, que pretende até 2015 tratar pelo menos 80% do esgoto doméstico da região metropolitana de São Paulo, pra esse projeto, o governo do Estado de São Paulo conta com financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento.
Uma cidade que recebe anualmente 7 milhões de visitantes, mesmo sem ter praias ou grandes cartões postais. O que faz a diferença em São Paulo é quando pegamos um livretinho sobre a programação cultural do mês e vimos que são muitos os eventos que acontecem na cidade simultaneamente. Passando por São Paulo peguei um Guia denominado Em Cartaz, da Secretaria da Cultura, de junho de 2008, com 72 páginas de atividades culturais do mês, com espetáculos de dança e de teatro, mostras de cinema, folclore, música clássica, fotografia, palestras, datas comemorativas como os 100 anos da imigração japonesa e os 40 anos do ano de 1968. Atividades pra satisfazer muitos e diferentes gostos. Na contracapa anunciava uma Feira de troca de livros e gibis, marcada para acontecer no Parque da Luz e Parque Santo Dias. Segunda a revista Exame (10/12/2003), naquele período acontecia 246 eventos diferentes todos os dias e num único final de semana, como por exemplo, apresentação de 128 peças de teatro, exibição de filmes em 272 salas de cinema, 38 shows musicais, 12 concertos de música clássica e dezenas de museus estão a disposição para visitação. Uma cidade muita ativa culturalmente, com muitas opções, desde que tenha dinheiro e disposição para sair de casa. Ainda segundo a revista, 25% da frota de automóveis e 25% das receitas de restaurantes do país estavam na cidade. Em 2002 já tinha um PIB de 96 bilhões de reais por ano. O consumo em escala faz girar a economia. Em São Paulo tudo é grande. Em 2009 somente para o GP Brasil de fórmula 1 recebeu cerca de 85 mil turistas, que deixaram 260 milhões de reais na cidade.
No início da década de 90 a então prefeita Marta Suplicy iniciou um projeto ousado para revitalizar o centro da cidade, que estava cheio de vendedores ambulantes, mendigos, insegurança pelos assaltos banais, sem cuidado com o patrimônio histórico. Um centro urbano onde circulam 2 milhões de pessoas por dia. Com investimentos, recursos externos inclusive, parcerias, e principalmente presença do poder público com iniciativas que mobilizaram as pessoas, começou uma virada cultural. Depois de anos, hoje quem vai a São Paulo sente o centro da cidade com vitalidade humana. Os prédios históricos do centro da cidade recuperados, muitos se destacam pela beleza, não ficando atrás quando comparado a centros de cidades européias.
Uma das maiores riquezas da cidade chama-se Parque Ibirapuera. É uma ilha verde incrustada no meio da selva de concreto. Um lugar incrível. Inimaginável, quando se pensa no conceito, no nosso juízo sobre a cidade, vista pelo noticiário de TV. Entrando no parque deixamos para trás o barulho, a fumaça dos carros, e temos na nossa frente bastante verde, com muitas árvores, gramados, lagos e alguns espaços de cultura, de ciência e lazer. Sombra boa, com temperaturas bem diferentes do centro, das torres de concreto. Alguns termos definem as impressões que o parque nos causa: convivência, paz, cuidado com o corpo e mente, busca espiritual, amor, descanso, carinho, cultura. Lá dentro, o ritmo é outro, bem diferente da avenida que passa em frente ao parque. Andando nos caminhos internos, cruza-se com todos os tipos de gente, idosos fazendo caminhadas, crianças, adultos de todas as idades, caminhando, correndo, andando de bicicleta, fazendo patinação, de skate, conduzindo cachorros. Sozinhos, em casais ou em grupos. Gente lendo, fazendo piqueniques com os colegas, casais namorando, sentados ou deitados no gramado, sem nenhum problema. Gente meditando, brincando. Parece que o medo ficou lá fora. Um lugar humanizado, do encontro e do respeito possível. Um lugar de harmonia. Além do Parque Ibirapuera, fui visitar o Parque Trianon, que fica em frente ao MASP, na avenida paulista, e o Parque Água Branca. Neste último funciona a Feira de alimentos orgânicos, promovida há anos pela AAO – Associação da Agricultura Orgânica, e o Parque da Luz que fica em frente a Estação da Luz, ao lado do Museu Pinacoteca. Todos os Parques visitados, limpos, bonitos, seguros, cheios de pessoas, que fazem caminhadas, que ficam sentados, que namoram, que ficam sozinhos pensativos sem ninguém perturbá-los. Uma visão de São Paulo diferente, prazerosa, onde temos a sensação de que é possível, de acreditar, de sermos otimistas na possibilidade de espaços de convívio coletivos.
Durante a semana que estive visitando a cidade, fiz como das outras vezes, a mochila nas costas, e uma agenda da semana cheia com vários lugares que eu gostaria de visitar, como o centro da cidade, livrarias, sebos, praças, parques, museus, restaurantes, e é claro as informações básicas de como chegar nos lugares de ônibus e metrô. Uso há muito tempo o transporte coletivo, em todas as cidades que morei, seja Passo Fundo, Pelotas, Bagé ou agora a Chapecó. Em São Paulo foi assim, andei de ônibus, lotações e metrô. É uma maneira de sentir a cidade bem perto, e como a população vive o seu cotidiano. E a metrópole São Paulo está condicionada a usar transporte de massa. Não há alternativa. A idéia de que cada um terá seu carro é equivocada pra qualquer lugar, mas aqui é mais premente, mais urgente, mais visível. É preciso investir e melhorar constantemente o transporte coletivo, para oferecer um serviço de qualidade para a grande massa de pessoas trabalhadoras. Eu defendo que o transporte coletivo deve ser gratuito e financiado pelos que têm automóveis, porque o povo que usa o coletivo presta um serviço de relevância social ao não circular de carro individual. Quem quer andar de carro deveria financiar o transporte público.
No dia 10 de maio de 2008, o noticiário da televisão informou que a cidade teve um engarrafamento de 266 quilômetros. Tudo parou, congestionou, com os carros em 46 minutos rodando apenas um quarteirão. Atualmente existem 6 milhões de veículos e 3 milhões de motocicletas rodando em São Paulo. São 800 novos carros a cada dia. O ano de 2008 no Brasil bateu recorde de produção e venda de carros, apesar da crise econômica mundial. Continuando assim, estima-se que em quatro ou cinco anos quase dobre o numero de veículos, e a previsão é que o trânsito entre em colapso. Como na previsão contida no livro “Não Verás País Nenhum” (autor Inácio Loyola Brandão), que por volta de 2012 a cidade paralisaria. A profecia apocalíptica está prestes a se cumprir: a cidade parece que vai ter um infarto. Tantos carros soltando fumaça no ar aumenta a poluição, consequentemente as internações. Muitas doenças crônicas surgem devido a poluição, isso aumenta os gastos públicos com saúde. Estima-se entre 4-9% de novos casos de cânceres de pulmão são devido a poluição. Mesmo diminuindo o enxofre no combustível e carros menos poluentes, a verdade é que não há espaço físico para tantos carros. A saída é coletiva. Resta convencer a classe média e os que estão em ascensão que esta é o único caminho. Se não for convencida pela consciência o recurso será implantar o que já existe em outras grandes cidades, a cobrança de pedágios. O que já ocorre em São Paulo é o rodízio onde uma vez por semana 20% dos carros são impedidos de rodar. Em Tóquio, por exemplo, quem quer comprar um carro, tem que pedir licença para a prefeitura e provar que tem lugar para guardar o veículo. Em Londres há pedágio, que estava fixado em R$ 26,00 por dia no ano de 2008, para quem estacionar seu veiculo no centro da cidade. Não tem mais lugar nas ruas, mas todo mundo quer ter o seu carrinho. A média de mobilidade em São Paulo é de 10 km por hora, igual à do século XVII. A poluição faz que a cidade tenha vários climas ao mesmo tempo, o que é alterado por ilhas de calor que se formam durante o dia nas regiões mais urbanizadas, afetando a saúde das pessoas. O custo da poluição dos automóveis na Região Metropolitana de São Paulo para a saúde pública é de R$ 1,5 bilhão por ano, segundo a revista FAPESP (n156, fev 2009) citando estudos da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Estima-se que 40% da poluição do ar é gerado por transportes movidos a combustível fóssil.
Uma semana em São Paulo, andando de dia e também a noite não presenciei nenhum assalto, nenhuma cena de violência. Em alguns lugares como o Parque Trianon, no centro da cidade, no Parque Ibirapuera, há policiamento ostensivo, sente-se a presença do estado e as pessoas parecem sentir-se seguras, andam tranqüilas. Mas a São Paulo que proporciona oportunidades também cria ilusões. Atualmente cerca de 20% dos moradores vivem em favelas, muitas delas em áreas de risco. Somente a favela de Eliópolis tem 100 mil habitantes. Há muito desemprego, trabalho informal, tráfico de drogas, moradias precárias e sempre improvisadas. Aliás, a própria vida de milhões parece estar sempre improvisada e a espera de milagres. A cidade precisa de grandes projetos de urbanização, que humanizem o cotidiano, que além de moradias dignas proporcione lazer, educação, esporte, saúde, convivência e criação cultural. Tudo tem solução, mas precisa de vontade política e ter prioridades.
O centro da cidade, na Praça da Sé e seus arredores a cidade fervilha, com muitos populares circulando. Uma coisa que chama a atenção são os artistas populares. São muitos os artistas que ganham – ou tentam ganhar – a vida com seus dotes, seus truques, seus dons. Com destaque para os nordestinos, e suas sanfonas, alguns contadores de estórias, repentistas. Mas por lá se vê sempre alguém tocando violão e cantando. Nota-se também a presença de religiosos que pregam suas crenças, tentando convencer as pessoas. No centro há pregadores evangélicos, uns vestidos com roupas de frades, baianas colocando búzios, ciganas, e outros. Andei pelas ruas, tirei fotos e tomei café. Nos arredores da Praça da Sé, visitei alguns sebos, comprei vários livros, com destaque para um do grande líder socialista russo Lênin sobre a economia russa do início do século XX, outro livro chamado A História da Cultura, de conteúdo de antropologia, e um belo livro importado sobre árvores, com ricas ilustrações. Mas uma cena deprimente é ver no centro da cidade mendigos a praça, e principalmente pessoas drogadas, viciadas em crack, atiradas nas calçadas, condenadas pelo vício.
Visitei o Mercado Público de São Paulo e valeu a pena. Este é um espaço público que também foi revitalizado pela prefeitura na gestão de Marta Suplicy e hoje é um local de visitas, de compras, de convívio humano e de valorização da alimentação e da cultura. Nas bancas do mercado se compra de tudo em termos de alimentação, com destaque para queijos de várias partes o mundo, grãos, carne de sol, embutidos diversos, temperos, conservas, frutas secas e naturais, bacalhau seco e muitos outros produtos de origem vegetal e animal, como peixes e carnes diversas. No mercado tem várias lanchonetes e restaurantes onde se encontra sanduíches de mortadela, pastéis e bolinhos de bacalhau, tradicionais da cidade. Pode-se comer acompanhados de chope ou de café. É um ótimo lugar para se visitar e sentir o humano e histórico que há na metrópole, conversar ou só observar o convívio. Um espaço especial, que resgata a tradição, respeita a cultura popular dos mercados públicos e se compra e se come com qualidade.
O museu do Ipiranga é de grande beleza, iniciando por sua arquitetura e seus jardins. Mas o acervo do museu é de grande importância cultural e histórica para o Brasil. Além deste visitei o museu Anchieta, a Pinacoteca, a Estação da Luz, e é claro o MASP – Museu de Arte de São Paulo. No MASP pude ver obras de grandes artistas nacionais e internacionais como Van Gogh e Monet. A arquitetura e a engenharia moderna do MASP impressionam, é sem dúvida, um patrimônio cultural do país. Em frente a famosa Avenida Paulista, onde comprei vários livros numa banca a R$ 9,90, como um biografia do líder palestino Yasser Arafat e um grande livro chamado Vida uma biografia não autorizada, que trata da evolução da vida no planeta. Andando umas três quadras dali descendo pela famosa Rua Augusta encontrei uns sebos e umas lojas de discos, e um vendedor ambulante do qual comprei uns documentários e filmes raros, como The Corporation, A Guerra do Fogo, a Sociedade do Espetáculo, Admirável Mundo Novo. Um camelô de grande relevância cultural, que ao tentar fazer negócio comigo corria dos fiscais da prefeitura. Para poder compra tive que esperar ele ir e vir, se escondendo da fiscalização. E por perto, sempre se acha bons locais pra tomar um cafezinho e observar o movimento.
Em uma noite tive o privilégio se subir a novíssima e belíssima Ponte Estaiada, que se projeta como um novo cartão postal da cidade. Uma grande obra da engenharia moderna, que reitera que as pontes não são somente úteis, mas podem ser também cartões postais para serem admiradas e lembradas, tornando-se símbolos, como acontece com cidade como São Francisco, Nova York, Londres, Brasília. Aponte é sustentada por cabos de aço, com duas pistas que se cruzam sobre o Rio Pinheiros. Um dia de noite passamos pelo sambódromo e deu pra ver a grandeza da festa, que em São Paulo fica a cada ano maior, e se aproxima do carnaval carioca.
Visitei a Galeria do Rock, local especializado em coisas do universo da música, ou mais especificamente do rock ‘n roll. Ali se encontra de tudo, como discos antigos, atuais, comuns ou raros, importados. Roupas, como camisetas de bandas, instrumentos diversos, indumentárias que povoam o imaginário da juventude rebelde. Aliás, na Galeria do Rock, é cheio de gente rebelde, de muitas tribos, de gostos variados, que se sente no visual. Poderia se dizer que São Paulo tem um templo dedicado ao rock. Comprei botons para por na jaqueta, das bandas The Doors, The Rolling Stones, Rush.
No domingo e penúltimo dia fomos com toda a família ao um passeio no Zoológico, onde ao lado do Parque funciona um Safári, onde se pode entrar no meio da mata, por uma estradinha e ir observando os animais soltos, alguns circulando por entre os carros. Um mergulho na natureza, bem pertinho da cidade de concreto.
São Paulo é assim, com favelas, com bairros classe média de contínuos de casas gradeadas, com torres de prédios modernos. Com a Avenida Paulista que se impõe como centro do capitalismo brasileiro. São Paulo traz em si as contradições do mundo. A região metropolitana tem umas das bases operárias mais organizadas do mundo, com um sindicalismo que ajudou a democratizar o país. A cidade já foi governada por esquerda e direita, onde ambas têm bases sociais de influência na política nacional. O encontro dos contrários. O contraditório em movimento.
Na segunda-feira de carnaval, mês de fevereiro, Roger, Cris, Richard foram me levar no aeroporto de Guarulhos, onde peguei o vôo para Porto Alegre, depois ônibus Unesul para Passo Fundo e Palmeira das Missões. Trouxe muitas fotografias, muitos livros, alguns cartões postais. Mas, sobretudo, muitas lembranças legais.
A vida sempre vale a pena, mas mais ainda quando somos capazes de romper barreiras impostas, quebrar ritos, e ter novos conceitos, colocando abaixo antigos e novos preconceitos, quando passamos a ver as coisas com novo olhar. Mudar a perspectiva do olhar as vezes implica em mudar a própria vida.
Acredito que devemos globalizar a solidariedade, o otimismo e as esperanças coletivas são as saídas para um mundo melhor. E, não adianta negar a metrópole e achar que as pessoas um dia voltarão ao campo para serem felizes. Deve-se assumir a tarefa gigantesca de democratizar a riqueza, garantir e universalizar direitos, socializar os sonhos, e acreditar que a vida na metrópole pode sim, ser como a harmonia que sentimos no Parque Ibirapuera, no Parque Trianon, no Parque Água Branca, no Parque da Luz. Eu acredito que pode sim, a vida ser assim.
Demilson Figueiró Fortes
Chapecó-SC, 2009.
terça-feira, 8 de setembro de 2009
Presidente vetará plantio de cana em algumas regiões do país
www.ambientebrasil.com.br
Lula vetará o plantio da cana em 50% do país
Com um ano e dois meses de atraso, o presidente Lula vai anunciar o veto à expansão das plantações numa área de 4,6 milhões de quilômetros quadrados - mais da metade do território nacional- e em regiões que mantenham a vegetação nativa no restante do país. Essas serão as principais medidas do "selo verde" que quer imprimir ao projeto do álcool combustível, escanteado devido à prioridade ao pré-sal.
Em discurso na sede da União Europeia, em Bruxelas, em julho de 2007, Lula afirmou que o biocombustível brasileiro não aumentaria o desmatamento nem avançaria sobre a produção de alimentos. Desde então, esse compromisso ficou limitado às palavras.
Com exceção das nove usinas que operam na Amazônia e na área do entorno do Pantanal mato-grossense, novos empreendimento serão proibidos nessas regiões, segundo a proposta. O projeto estimulará novas plantações de cana em áreas de pastagens degradadas.
A expectativa de governo e produtores é duplicar a área de cerca de 7 milhões de hectares (ou 70 mil quilômetros quadrados) de cultivo até 2017. Objeto de longa e acirrada disputa no governo, as regras do zoneamento da cana correm o risco de serem alteradas no Congresso antes de entrarem em vigor.
Aos ministros, Lula anunciou que não podia comprometer a estratégia do álcool "verde" para atender aos interesses de produtores rurais do Mato Grosso e do Mato Grosso do Sul, aliados do ministro Reinhold Stephanes (Agricultura). Mas, ao optar por um projeto de lei - e não por medida provisória-, Lula abriu caminho para novo "round" entre o agronegócio e os ambientalistas.
O anúncio do zoneamento da cana está confirmado para o dia 17. O evento terá 300 convidados. Integrantes do governo reconhecem no ato comandado por Lula uma resposta à movimentação da pré-candidata ao Planalto Marina Silva (PV). O compromisso com o biocombustível verde extrapola, porém, o debate político interno. Tem a ver com a imagem internacional e com a possibilidade de barreiras não-tarifárias à venda do álcool no exterior.
Essa preocupação foi exposta em carta a Lula pelo presidente da Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar), Marcos Jank. A carta registra que "percepções errôneas sobre a correlação entre biocombustíveis e desmatamento ainda persistem" e pede a definição breve das regras.
Lobby - O lobby mais forte e principal entrave ao zoneamento da cana até aqui tem como pivô uma área de 110 mil quilômetros quadrados no entorno do Pantanal. Ambientalistas alegam que o cultivo de cana na área, onde já operam cinco usinas, pode contaminar o Pantanal. O ministro Carlos Minc (Meio Ambiente) ameaçou deixar o governo caso a área fosse liberada para a cana.
Os produtores locais, que esperavam fazer da borda do Pantanal um novo polo de produção de açúcar e de álcool, prometem reagir. "70% da produção do Mato Grosso se concentra nessa região e três novos projetos estavam aguardando a liberação. A decisão é um retrocesso", disse Jorge Santos, diretor do Sindálcool (Sindicato das Indústrias Sucroalcooleiras do Estado do Mato Grosso).
A mobilização para tentar mudar a proposta do governo no Congresso é confirmada pelo presidente do BioSul (Associação dos Produtores de Bioenergia de Mato Grosso do Sul), Roberto Hollanda. "Há cerca de um milhão de hectares que poderiam receber novos projetos", defende.
A presidente da CNA (Confederação Nacional da Agricultura), senadora Kátia Abreu (DEM-TO), avalia que o zoneamento da cana deveria se limitar a medidas de incentivo à produção em áreas que o governo considerasse mais aptas, sobretudo por meio de financiamento público. "Proibir é uma coisa de que não gosto; ferir o direito de propriedade e a livre iniciativa incomoda", disse.
A proposta do governo prevê o veto à expansão da cana na Amazônia e no entorno do Pantanal não só via licenciamento, mas por meio de autorização do Ministério da Agricultura às novas usinas. Outra medida é proibir o corte da vegetação nativa para o cultivo de cana. A desobediência poderá levar ao embargo da produção.
(Fonte: Marta Salomon/ Folha Online)
Lula vetará o plantio da cana em 50% do país
Com um ano e dois meses de atraso, o presidente Lula vai anunciar o veto à expansão das plantações numa área de 4,6 milhões de quilômetros quadrados - mais da metade do território nacional- e em regiões que mantenham a vegetação nativa no restante do país. Essas serão as principais medidas do "selo verde" que quer imprimir ao projeto do álcool combustível, escanteado devido à prioridade ao pré-sal.
Em discurso na sede da União Europeia, em Bruxelas, em julho de 2007, Lula afirmou que o biocombustível brasileiro não aumentaria o desmatamento nem avançaria sobre a produção de alimentos. Desde então, esse compromisso ficou limitado às palavras.
Com exceção das nove usinas que operam na Amazônia e na área do entorno do Pantanal mato-grossense, novos empreendimento serão proibidos nessas regiões, segundo a proposta. O projeto estimulará novas plantações de cana em áreas de pastagens degradadas.
A expectativa de governo e produtores é duplicar a área de cerca de 7 milhões de hectares (ou 70 mil quilômetros quadrados) de cultivo até 2017. Objeto de longa e acirrada disputa no governo, as regras do zoneamento da cana correm o risco de serem alteradas no Congresso antes de entrarem em vigor.
Aos ministros, Lula anunciou que não podia comprometer a estratégia do álcool "verde" para atender aos interesses de produtores rurais do Mato Grosso e do Mato Grosso do Sul, aliados do ministro Reinhold Stephanes (Agricultura). Mas, ao optar por um projeto de lei - e não por medida provisória-, Lula abriu caminho para novo "round" entre o agronegócio e os ambientalistas.
O anúncio do zoneamento da cana está confirmado para o dia 17. O evento terá 300 convidados. Integrantes do governo reconhecem no ato comandado por Lula uma resposta à movimentação da pré-candidata ao Planalto Marina Silva (PV). O compromisso com o biocombustível verde extrapola, porém, o debate político interno. Tem a ver com a imagem internacional e com a possibilidade de barreiras não-tarifárias à venda do álcool no exterior.
Essa preocupação foi exposta em carta a Lula pelo presidente da Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar), Marcos Jank. A carta registra que "percepções errôneas sobre a correlação entre biocombustíveis e desmatamento ainda persistem" e pede a definição breve das regras.
Lobby - O lobby mais forte e principal entrave ao zoneamento da cana até aqui tem como pivô uma área de 110 mil quilômetros quadrados no entorno do Pantanal. Ambientalistas alegam que o cultivo de cana na área, onde já operam cinco usinas, pode contaminar o Pantanal. O ministro Carlos Minc (Meio Ambiente) ameaçou deixar o governo caso a área fosse liberada para a cana.
Os produtores locais, que esperavam fazer da borda do Pantanal um novo polo de produção de açúcar e de álcool, prometem reagir. "70% da produção do Mato Grosso se concentra nessa região e três novos projetos estavam aguardando a liberação. A decisão é um retrocesso", disse Jorge Santos, diretor do Sindálcool (Sindicato das Indústrias Sucroalcooleiras do Estado do Mato Grosso).
A mobilização para tentar mudar a proposta do governo no Congresso é confirmada pelo presidente do BioSul (Associação dos Produtores de Bioenergia de Mato Grosso do Sul), Roberto Hollanda. "Há cerca de um milhão de hectares que poderiam receber novos projetos", defende.
A presidente da CNA (Confederação Nacional da Agricultura), senadora Kátia Abreu (DEM-TO), avalia que o zoneamento da cana deveria se limitar a medidas de incentivo à produção em áreas que o governo considerasse mais aptas, sobretudo por meio de financiamento público. "Proibir é uma coisa de que não gosto; ferir o direito de propriedade e a livre iniciativa incomoda", disse.
A proposta do governo prevê o veto à expansão da cana na Amazônia e no entorno do Pantanal não só via licenciamento, mas por meio de autorização do Ministério da Agricultura às novas usinas. Outra medida é proibir o corte da vegetação nativa para o cultivo de cana. A desobediência poderá levar ao embargo da produção.
(Fonte: Marta Salomon/ Folha Online)
Países pobres precisam de ajuda para enfrentar as mudanças climáticas
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Países pobres precisam de um Plano Marshall para as mudanças climáticas
Os países pobres precisam de um verdadeiro "Plano Marshall", de cerca de 600 bilhões de dólares (419,47 bilhões de euros) por ano a partir de agora, para enfrentar rapidamente as mudanças climáticas, segundo um relatório da ONU divulgado nesta terça-feira (1º).
"Para orientar as despesas de investimento para a obtenção de um crescimento ideal, um apoio internacional maciço deverá se manifestar sob a forma de um programa de investimento mundial", indica o Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da ONU (DESA) em seu estudo.
Os países pobres "precisam de um plano Marshall", insistiu um dos autores do estudo, Richard Kozul-Wright, durante uma entrevista coletiva à imprensa.
Kozul-Wright considera que entre 500 e 600 bilhões de dólares por ano, ou seja, cerca de 1% do produto mundial bruto, seriam necessários para ajudar os países pobres a enfrentar os problemas relacionados ao clima.
Para a ONU, a questão das mudanças climáticas não pode ser simplesmente resolvida por uma diminuição generalizada das emissões de gases do efeito estufa de todos os países em relação aos seus níveis atuais.
O valor das despesas públicas destinadas a atenuar os efeitos das mudanças climáticas chega a apenas 21 bilhões de dólares por ano, enquanto que centenas de bilhões de dólares são necessários, indica a ONU.
Solucionar esse problema está no centro das discussões que antecedem a próxima Conferência de Copenhague, que será realizada em dezembro. Durante o encontro, os chefes de Estado e de governo deverão tentar chegar a um acordo que deve suceder o Protocolo de Kyoto a partir de 2013.
Esse acordo deve permitir conter o aumento das emissões de gases do efeito estufa que podem levar a um aquecimento global que pode chegar a 6,4°C até o fim do século, segundo as previsões do Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre a Evolução do Clima (Giec).
"Precisamos de um verdadeiro New Deal", insistiu Kozul-Wright, ressaltando que os países em desenvolvendo são aqueles que sofrem mais os efeitos das mudanças climáticas.
As estimativas citadas no relatório indicam que por cada aumento de 1°C nas temperaturas mundiais médias, o crescimento anual nos países pobres poderá cair de 2 a 3 %, sem, entretanto, causar a menor mudança no crescimento dos países ricos.
Para os países pobres, o desafio principal é "casar os objetivos de desenvolvimento com os objetivos ligados às mudanças climáticas", explicou aos jornalistas o diretor da organização não governamental South Center, Martin Khor.
A ONU recomenda aos países ricos que favoreçam transferências de tecnologia para os países pobres.
"Grandes investimentos seriam necessários imediatamente, sobretudo no setor público, para construir novas infraestruturas energéticas", estipula o estudo.
"As tecnologias necessárias existem, mas elas são caras", insistiu Khor.
Segundo a ONU, "o desrespeito por parte dos países ricos de seus compromissos de longo prazo para uma ajuda internacional para a redução da pobreza e para uma transferência significatica de recursos e de tecnologia constitui o principal obstáculo para a resolução do problema das mudanças climáticas".
(Fonte: Yahoo!)
Países pobres precisam de um Plano Marshall para as mudanças climáticas
Os países pobres precisam de um verdadeiro "Plano Marshall", de cerca de 600 bilhões de dólares (419,47 bilhões de euros) por ano a partir de agora, para enfrentar rapidamente as mudanças climáticas, segundo um relatório da ONU divulgado nesta terça-feira (1º).
"Para orientar as despesas de investimento para a obtenção de um crescimento ideal, um apoio internacional maciço deverá se manifestar sob a forma de um programa de investimento mundial", indica o Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da ONU (DESA) em seu estudo.
Os países pobres "precisam de um plano Marshall", insistiu um dos autores do estudo, Richard Kozul-Wright, durante uma entrevista coletiva à imprensa.
Kozul-Wright considera que entre 500 e 600 bilhões de dólares por ano, ou seja, cerca de 1% do produto mundial bruto, seriam necessários para ajudar os países pobres a enfrentar os problemas relacionados ao clima.
Para a ONU, a questão das mudanças climáticas não pode ser simplesmente resolvida por uma diminuição generalizada das emissões de gases do efeito estufa de todos os países em relação aos seus níveis atuais.
O valor das despesas públicas destinadas a atenuar os efeitos das mudanças climáticas chega a apenas 21 bilhões de dólares por ano, enquanto que centenas de bilhões de dólares são necessários, indica a ONU.
Solucionar esse problema está no centro das discussões que antecedem a próxima Conferência de Copenhague, que será realizada em dezembro. Durante o encontro, os chefes de Estado e de governo deverão tentar chegar a um acordo que deve suceder o Protocolo de Kyoto a partir de 2013.
Esse acordo deve permitir conter o aumento das emissões de gases do efeito estufa que podem levar a um aquecimento global que pode chegar a 6,4°C até o fim do século, segundo as previsões do Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre a Evolução do Clima (Giec).
"Precisamos de um verdadeiro New Deal", insistiu Kozul-Wright, ressaltando que os países em desenvolvendo são aqueles que sofrem mais os efeitos das mudanças climáticas.
As estimativas citadas no relatório indicam que por cada aumento de 1°C nas temperaturas mundiais médias, o crescimento anual nos países pobres poderá cair de 2 a 3 %, sem, entretanto, causar a menor mudança no crescimento dos países ricos.
Para os países pobres, o desafio principal é "casar os objetivos de desenvolvimento com os objetivos ligados às mudanças climáticas", explicou aos jornalistas o diretor da organização não governamental South Center, Martin Khor.
A ONU recomenda aos países ricos que favoreçam transferências de tecnologia para os países pobres.
"Grandes investimentos seriam necessários imediatamente, sobretudo no setor público, para construir novas infraestruturas energéticas", estipula o estudo.
"As tecnologias necessárias existem, mas elas são caras", insistiu Khor.
Segundo a ONU, "o desrespeito por parte dos países ricos de seus compromissos de longo prazo para uma ajuda internacional para a redução da pobreza e para uma transferência significatica de recursos e de tecnologia constitui o principal obstáculo para a resolução do problema das mudanças climáticas".
(Fonte: Yahoo!)
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